dezembro – 2013

A Proposta

Quem nunca pensou em dar vida a objetos do nosso dia a dia? Dentre as tantas obras de Machado de Assis há vários apólogos, textos repletos de ironia, uma visão crítica da sociedade e questionamentos sobre a vida. Depois de ler “Uma história comum”, narrada por um simples alfinete que conta sua trajetória, e “Um apólogo”, que traz um áspero diálogo entre uma agulha e uma linha, convidamos as crianças a criar personalidade para alguns objetos e escreverem sua história. Apresentamos nesse Informe Literário, alguns desses textos.

Vida de Televisão

Gabriel Vila Maior Teixeira

Passei por muita coisa antes de estar aqui, no lixão, quebrada. Eu era uma televisão de sessenta e duas polegadas. Como eu já contei, estou quebrada. Você pode pensar: “Então, se está morta, como vai contar sua vida?” Eu não estou morta. Estou quebrada. Rachada, para ser mais precisa. Bem, acho que já enrolei muito. Vamos para a minha vida de vinte e seis horas (até agora).
Toda televisão começa sua vida na fábrica. Muito ao contrário do que os humanos pensam, nós temos órgãos. Mas são peças tecnológicas. Comentei isso, pois meus “órgãos” vieram a dar problema.
Voltando à fábrica, após já estar pronta, fui levada ao caminhão de entregas. Eu, crente que ia ser deixada na casa de algum rico, já que sou uma TV grande, fui levada a um depósito de uma loja e ainda me botaram um preço absurdo! Dez mil reais! Eu valho, no mínimo, vinte mil!
Após mais ou menos uma hora, alguns homens falaram que precisavam de uma televisão grande. Fiquei gritando que nem uma maluca, mas percebi que ninguém me ouviu. Só os outros objetos. Apenas fiz um amigo lá. Um radinho de decoração que nem ligar ele ligava. Mas ele me acompanhou até o lixão. Dei o apelido dele de Rad e ele me apelidou de Sessenta e Dois.
Achei que eu e Rad iríamos ficar ali para sempre, mas alguém muito rico comprou um kit de sala de estar e nós estávamos nele. Fomos, então, para a casa de um bilionário. Nossa felicidade durou pouco e já falarei o porquê. Porém, aproveitamos nosso momento. O homem sempre via televisão e fez Rad virar um radio que funcionava.
Voltando um pouco no tempo… se lembra que eu disse que meus “órgãos seriam um problema? Bem, um deles pifou e começou a pegar fogo. Por algum motivo ele começou a causar um incêndio na casa do homem. Como eu não morri incinerada eu não sei, mas depois disso selecionaram objetos para irem para o lixão. Eu fui um deles e Rad também. Ele brigou tanto comigo por ter acabado com nosso momento e acabamos com a nossa amizade. Percebi que o caminhão ia esmagar o lixo, mas fui rápida e consegui puxar Rad para cima de mim e acabou que ele morreu. Nunca gostei dele mesmo…
Cheguei no lixão inteira. Já Rad… Nem tanto. Fiquei com pena dele e fiz um túmulo. Acabei me rachando e agora estou onde comecei a contar a história. No lixão, jogada como lixo. Ouvi alguém falar “Incineração do setor sete.” Olho e percebo que estou no setor sete! Eu vou morrer incinerada! Eu vou morrer (incineração acontece).
– É, crianças. É isso que acontece quando se é uma televisão azarada.
“AGORA VOCÊ SABE!”

A História de um Clips…

Clara Atem

Oi, eu sou um clips! Chamo Jorge, tenho um ano. Minha história é assim…
Eu fui comprado em uma papelaria junto com muitos outros da mesma espécie que eu. Um dia, estava prendendo os documentos de uma mulher que estavam dentro de uma bolsa. Na hora ela tirou rapidamente os papeis lá de dentro, eu caí no chão! E ela nem percebeu… Fui pisoteado várias vezes e depois de alguns dias um homem me viu e disse:
– Olha só! Um clips!
Ele se abaixou para me pegar e me apertou que nem um louco!
– Aaaiii! Tá pensando o quê? Clips também têm sentimentos!
Cheguei até a casa dele, era sombria e gelada… Dava muito medo… Que nem ele!
E isso foi acontecendo muitas vezes comigo, alguém me achava na rua, me perdia, eu era pisoteado até alguém me achar de novo…
Mas teve um dia que foi amedrontador! Uma vez fui parar em uma casa que tinha uma criança de uns 7 anos. De repente ela percebeu minha presença ali, e ela estava chegando perto, mais perto e mais perto… Foi quando essa criatura infantil me agarrou, pegou o sal e começou a me lamber sem mais nem menos! E depois a me morder. Me mordeu tanto que me entortou e perdi minha forma!
Depois ela me tacou pela janela e caí dentro de um bueiro! E fiquei lá…
Bem, essa é a dura e longa vida de um clips…

Porquinho, quer dizer…Cofrinho!

Vicente Bronstein Barone

Eu era apenas um porquinho, quer dizer, um cofrinho que se alimentava de moedas pelas costas em cinco dias. Eu não era muito rico, nem muito pobre. Meu dono não ligava muito pra mim, a não ser pelo dinheiro que eu carregava. Ficava contando quanto dinheiro ele ganhava em um mês e uma vez economizou tanto que deu para comprar outro cofre! Um desses todo moderno, com botões, cartão de acesso e se alguém tentasse tirar um centavo do cofre, ele começava a apitar igual a um alarme de um carro.
Meu dono pegou todo o dinheiro que tinha em mim e o colocou no outro cofre. Ele me pegou e me botou na gaveta. Me senti inútil por meses.
Um dia, ele saiu para jantar e um ladrão entrou em sua casa e roubou o seu dinheiro. Quando ele chegou, viu que todo seu dinheiro tinha sumido, e pensou que o cofre estava muito exposto e precisava de um cofre menor para guardar em outro lugar. Então, um raio de sol me iluminou. Meu dono me colocou em um carrinho de controle remoto, me disfarçou de porco piloto de carro e me encheu de dindim. E em um ano fiquei tão cheio que dava para comprar um carro!!!!

Vida de Chuteira

Paulo Raitzik Zonenschein 

Não sou homem, nem mesmo humano. Sou uma das coisas que o brasileiro mais gosta de ganhar. Já sabe o que sou? Então eu te dou mais uma dica. Se você joga futebol, costuma me usar. Por favor, não pense que é a bola. Sou uma das queridas chuteiras do Messi.
Ninguém sabe, mas as chuteiras tem uma ligação com o cérebro. Messi é um jogador inteligente? O mais inteligente da face da Terra, mas, modéstia parte, eu sou a cereja do bolo.
Ele botou um tênis para ir para o jogo contra o Sevilla, e teve que comprar uma chuteira qualquer na rua. E essa chuteira sou eu. Sou uma F50 modelo laranja. Agora vocês vão ouvir minha aventura: No seu carro, ele me vestiu apressado. Gostei bastante de brincar com os pedais. Pulando logo para o jogo… Lá estava eu, na final da Copa Espanhola. E o jogo começou.
Logo aos catorze minutos, comuniquei ao Messi para ele chutar de longe e ele fez o gol. A bola caiu no cantinho. Foi nesse momento que reparei que em campo, as chuteiras se comunicam! Sensacional! Muito tempo passou. O Sevilla virou! No último minuto de jogo, houve um pênalti para o Barcelona. Obviamente, o Messi foi cobrar. As chuteiras que estavam em volta de mim torcendo para eu marcar, me pressionaram. Cada uma falava para eu cobrar em um canto diferente.Tinha escolhido o esquerdo, mas logo quando ele ia bater na bola, mudei de ideia para o direito. Claro que ele isolou. O jogo acabou e o Barcelona perdeu: Sevilla 2x1Barcelona. Se vocês me derem um momento para consolar meu dono, obrigado: “Desculpa aí, Messi.”

Uma Simples Moeda

Ainoa Stanton Vaz de Melo

…Depois fui jogada no mar da Tasmânia, fui engolida por um tubarão branco e…Perdoe-me este começo.

É um modo de ser épica. Vamos recomeçar tudo. Para resumir, sou uma simples moeda de um real guardada com várias outras moedas e notas no bolso de um pobre homem que estava vendendo tudo que tinha. Estava tudo estocado no fundo do pequeno armazém: roupas, bicicleta, livros, brinquedos, frutas, legumes, remédios, ferramentas… Tinha de tudo lá. Estava tudo dentro de caixas separadas: grandes,pequenas,médias,caixas para as frutas,outras para legumes,etc.E também tinha um baú onde ele guardava todo o dinheiro que ganhava. Um lindo, chique e rico homem passou e comprou uma cesta de frutas. O pobre homem que vendia, logo se alegrou e foi pegar o troco. Sua mão vinha na minha direção. Que alegria! Mas, infelizmente, só passou por mim. Ele pegou a nota de dois reais e a nota de dez.
O homem me deu foi para uma senhora que comprou um abacaxi. A dona me colocou na bolsa e partiu para casa. Ela pegou um taxi e carregou o abacaxi numa sacola.Quando a senhora chegou em casa,(e na verdade nem era a casa dela),ela deu o abacaxi para sua filha e foi embora. Mas eu caí de sua bolsa e a mulher me pegou no chão e me guardou. Depois deu-me para sua filha de quatro anos. A garota achou que eu fosse uma bonequinha e me colocou numa cama para Pollys. Ela me tratou muito bem e eu me senti muito confortável naquela cama. Mas o garoto adolescente, seu irmão, entrou no quarto, viu que ela estava brincando com dinheiro e começou a discutir:
– Legal essa moeda, hein?-falou ele sarcasticamente- Agora me dá ela que eu preciso!
O jovem já ia me tirar da minha caminha, mas felizmente a garota foi mais rápida. Me pegou e me defendeu:
-Não!É meu bebê!
-Me dá!!
A mãe ouviu a gritaria, entrou no quarto e brigou com o garoto, e bem que ele merecia:
-Astolfo! Devolva já a moedinha para sua irmã! Você já tem sua mesada!
-Mas, mãe…
-Já para o quarto!E deixe ela fazer o que ela quiser com a moeda! O dinheiro é dela!
-Onde ela achou?!
-Isso não te interessa! Já pro quarto!
O jovem foi para o quarto e os outros irmãos chegaram para ver o que estava acontecendo:
-O que será que deixou nosso irmão mais velho irritado?
-Nossa! Onde você conseguiu isso?
-O Eduardo está dormindo, mas se estivesse aqui iria engolir a moeda!AH!AH!AH!
No dia seguinte fomos todos à praia e a garotinha me levou junto. Mas não podíamos nem chegar perto do mar, pois era o mar da Tasmânia. Estava todo mundo se divertindo quando a felicidade acabou.
O Astolfo me pegou da mão da menina. Fui jogada no mar da Tasmânia, engolida por um tubarão branco e…

Um Caderno

Guilherme Coutinho Herszage

Sou um simples e famoso caderno. Já me emocionei, chorei, me espantei, e me encantei. Sou nada mais nada menos que o caderno de Machado de Assis! Mas nem sempre fui assim… Depois de nascer, na fábrica “Yaystone”, fui direto a uma papelaria. Todos que passavam nem ligavam. Eu era um simples caderno, sem nada de especial.
Após meses esperando alguém me querer, fui escolhido por George O. Damon. Se ele parecer para alguém um bom comprador, logo tiro suas esperanças. O garoto tinha seis anos! Só fiquei com ele por seis dias. Seis longos dias… Mesmo com apenas duas páginas usadas, fui ofendido com erros GRAVES de ortografia. Por exemplo “GRAVES” era “GARVES”!
Enquanto desistia de viver, pois nada era pior que aquilo, recebi a feliz notícia de que eles haviam achado um outro caderno, o que o garoto realmente queria. Eu era temporário.
Enfim, a mãe do garoto, sem nenhum ressentimento me jogou fora, na rua. Se estiver se perguntando como cheguei a Machado, lá vai!
Eu estava no chão, sem esperanças, quando vi um homem me olhando. Era ele, logo o reconheci! Machado, calmamente, me pegou do chão e me levou para sua casa. Achei muito estranho. Por que eu? Bem, depois de anos sem resposta, mas de trabalho intenso, ouvi uma conversa dele com seu amigo:
– Está vendo este caderno? – Perguntou Machado. Nele, foram escritas todas as minhas histórias e outras que ainda virão. Sabia que o achei no meio da rua?
– Mas por que você não comprou outro? Questionou o amigo.
– Você não entendeu?- Era o destino! Achá-lo foi a melhor coisa que me aconteceu!
– E por quê?
– Depois de o encontrar, todas as minhas histórias foram publicadas, apreciadas e até amadas!
– Tudo bem, então…
Fiquei e estou muito orgulhoso. Sou a razão de Machado ser famoso! Modéstia `a parte.
Bem, essa é minha história… Agora você sabe a quem agradecer quando ler os contos desse grande escritor.

A História de uma Caneta Perfeita

Maria Isabel Gatti

Eu sou uma caneta. Para ser clara, sou uma caneta de uma Pop Star. Só escrevo autógrafos.
Hoje vou para uma sessão de autógrafos no Shopping.
Todo mundo diz que eu sou chata, estressada e até um pouco birrenta.
Bom, agora vocês já sabem quem eu sou e como eu sou, vou ter que parar de falar porque eu já estou indo para o Shopping.
Hoje é o lançamento do CD da Pop Star e a fila de fãs está enorme…
Depois de duas horas de trabalho, já tinha dado uns cem autógrafos e ainda falatava uma menininha, a última da fila. Foi quando a minha dona foi escrever a última letra do nome dela, eu comecei a falhar, o que achei estranho porque eu nunca tinha falhado desde o Natal do ano passado, quando fui dada a ela de presente pelo seu pai. Então, a menininha começou a chorar, a berrar e depois dizem que eu sou birrenta. Eu não aguentei e falei:
-Já chega! Eu não aguento mais! Essa menina chora,o outro menino grita, o pai daquele outro garoto fala palavrão…Eu já estou de saco cheio, eu me demito desse emprego!
-Como assim????-gritou a Pop Star.
-Eu me demito!!!!-gritei.
-Não entendi! Você fala!-disse ela.
-Sim, eu falo!-disse.
Então, eu pulei da mão dela e fui andando, ou melhor, saltitando até a porta e eu nunca mais fui vista.
Até que uma mulher que era professora me achou e…
E foi assim que eu perdi um emprego ruim e ganhei um emprego bom. Hoje eu sou a caneta de uma professora bem durona que dá notas horríveis para os alunos!