setembro de 2013

A Proposta

Temos aqui o resultado de mais um desafio literário proposto às turmas, desta vez em torno da crônica Zôo Ilógico, de Mia Couto, texto publicado, inicialmente, em Jornal Moçambicano. O desafio foi produzir uma carta do leitor, tentando apresentar argumentos que se aproximassem ou se afastassem das ideias apresentadas pelo autor. Antes da carta, discussões entre os estudantes, apresentação do texto a outros leitores e recolhimento de suas reações, alimentaram as turmas de boas reflexões.

Provocação feita!

No zoo-ilógico
de Mia Couto

Zoo, ainda aceito. Mas lógico, porquê? As mais das vezes é mesmo ilógico: os animais com ordem de prisão, detidos sem outra legalidade que não seja a prepotência de nossa espécie. O senhor duvida? Então venha por outros olhos visitar o parque.
Desta feita, daremos volta à passarada. Dá pena ver tanta pena subusada. Contudo, os cantares de encanto, os pios e os rodopios, as súbitas colorações, todas essas maravilhas permanecem, resistindo à jaula. Mar, ave, ilhas.
Primeiro, as aves de rapina. Estes majestosos caçadores não merecem tão pejorativa nomeação. No domínio das aves muitas correcções se necessitam, como haveremos de ver.
Comecemos pelo falcão: já viram os olhos, como são felinos? Certo seria chamar-se de falgato.
Já o mocho tem os olhos como as lojas antes do PRE(1): estão abertas mas não atendem ninguém.

Haverá uma estória de amor, feita de eterno desencontro, entre a ave nadadora, o pinguim, e o peixe-voador.
O macho da catatua: o catateu. Entre guerreiro e palhaço a catatua se assustou com o temor que quer infligir aos outros.
O tucano emitiu o bico em triplicado. Não está pousado num galho mas sobre um cano. Pelo nome se vê que trata o cano por tu, o tucano.
É preciso ter perna para pernoitar. Quem diz é a garça em suas pernaltitudes.
Rectifico o albatroz: alba, sim; atroz, nunca.
O maior da família, a avestruz. É uma ave que não exerce. As asas, desempregadas, quase estão murchas. Alguma coisa deve ter acontecido para Deus lhe tirar o brevet.
De raspão quase o morcego se empassarava. No escuro-fusco, o mamífero aviador se orienta só de ouvido. Desgraça do morcego, então, era ser morsurdo.
Há hierarquia nos nomes. Pássaro não é sinónimo completo de ave. Pássaro é menos que ave, estatuto menor da carreira alada. Da mesma maneira, pluma e pena não são sinónimos gémeos. A pluma é a pena de gala, o traje de cerimónia.
O galo: mais cavalheiro não conheço. Cisca e debica mas quase não come. Oferece o melhor às galinhas do seu harém. Exemplo para os homens que, ao comerem as galinhas, não deixam parte valiosa para as mulheres.

A mais volátil de todas as feras: a atmosfera. Ela é como o coração de certas mulheres: todos nela residem, ninguém lá mora.
O leitão pequeno: o leitinho.
O marisco, primeiro foi mar. Só depois foi isco. Como a amêijoa, no balanço da onda, amenjoada.
O macho da gazela? O gazele. A fêmea do elefante: a elafante.
Ficando nos paquidermes: não será que, de tão enormíssimos, eles em vez de digestão, têm trigestão?
A mais bela cá na área? A canária? Nas artes do chilreio, a maior: a chilrainha. E que dizer da ave que pia e logo se arrepende? É a ave dos arrepios. E ainda de passarada, se diz dos compromissos: antes comprometido que com o peru metido.

E, no fim da volta, mais além, enjaulado, o pelicano. Como ele está magro: é só pele e cano!
A visita findou suas horas. A tabuleta, no fecho da estória, rezava: proibido retirar comida aos animais. Um outro letreiro, virado para o interior das jaulas avisava a bicharada: “não provoque os homens, sua humanização está em curso”.
A cidade e o zoo-ilógico: qual deles aprisiona o outro? Ao menos, se isentem de pagamento os bichos quando entenderem visitar os homens em suas urbaníssimas gaiolas, os altos prédios que tanto arranham os céus.

Livro: Cronicando. Lisboa: Editorial Caminho, 1991

Reação 1

Antonia e Rosa

Mia Couto,
Não sabemos escrever, nem descrever, como você faz. Não brincamos tanto com as palavras, nem reinventamos a escrita, afinal, nem aprendemos isso na escola, mas a gente pensa, e cria opiniões, como fazemos, agora, sobre sua crônica.
Realmente, dentro da inocência dos animais, existe a liberdade. E talvez a maior jaula dos homens seja sua própria mente, e a infinidade de pensamentos que ela permite. Talvez, com todo conhecimento que alcançamos, nós tenhamos a necessidade dos limites, e por isso criamos essa grande jaula, também conhecida por ‘cidades’, ou ‘prédios’ – como você pode perceber, até a palavra ‘prédio’ se parece com a palavra ‘prisão’. Nós nos aprisionamos à discriminação de qualquer coisa diferente, e no mundo animal isso não existe. E isso é uma das maiores liberdades. Pelo olhar dos outros, os homens podem ser mais selvagens que os próprios animais. Nós mesmos nos julgamos como racionais, só não nos “tocamos” que vivemos dentro dessa loucura organizada, nessa rotina ilógica, que nós julgamos ser lógica. Mas o que tudo isso quer dizer?
Continuaremos procurando respostas.
Antonia e Rosa

Reação 2

Letícia, Joana e Helena L.

Caro Mia Couto,
Estávamos pensando sobre sua interpretação do avestruz, na qual você aponta que algo pode ter acontecido para que Deus lhe retirasse o brevet.
Lembramos, então, dos cegos, que de certo modo, perderam o seu próprio “brevet”.
E suas almas? Cegam com eles, já que os olhos são as janelas para ela?
Carinhosamente,
Letícia, Joana e Helena L.

Reação 3

Alice T, Julia e Stephanie

Caro Mia Couto,
Primeiramente, gostaria de começar essa carta com uma frase de sua autoria “A cidade e o zôo-ilógico: qual deles aprisiona o outro?” Os homens, assim como os animais na sociedade humana, vivem em selvas de pedras, aprisionados em cubículos engradados com a falsa ideia de proteção. O mesmo homem que aprisiona os animais aprisiona a si mesmo para escapar da irracionalidade das verdadeiras feras, aniquilando qualquer possibilidade de liberdade.
Humanos e animais estão sujeitos a todo tipo de violência física e psicológica, como você nos recomendou: “não provoque os homens, sua humanização está em curso” e, assim, terminamos essa carta, concordando que, como os homens, estamos longe de chegar à perfeição.
Atenciosamente,
Alice T, Julia e Stephanie

Reação 4

João Daniel e Maurício

Caro Mia Couto,
De certo modo, concordamos com seus argumentos, realmente, há lógica em sua afirmação de que os humanos estão em um processo de humanização, interferindo em toda e qualquer vida, (inclusive a sua própria, de cada ser). Apesar de alguns humanos quererem ajudar, esse processo de destruição corre mais rápido, isso porque a maioria não está preocupada em construir algo que seja bom para todos. Há, ainda, uma outra pequena fração que está completamente contra a qualquer projeto humanizador, pois se isso acontecer, perderia seu dinheiro, não teriam, por exemplo, como ter um zoológico.
Humanos humanizados não interessaria. A falta de tato da sociedade humana atrasa e impede todos os avanços da natureza. Realmente, isso é uma grande lástima de nossa sociedade
Por um mundo melhor,
João Daniel e Maurício

Reação 5

Beatriz e Marina

Prezado Mia Couto
A humanidade é mesmo uma loucura, nos perdemos dentro de nosso próprio universo imaginário, vivemos dentro de jaulas sem ter consciência do que é se aprisionar. E ainda por cima costumamos prender, quando temos medo de algo ou de alguém solto pelo mundo. Temos medo do que eles podem fazer com a gente, sem nos dar conta do que estamos fazendo com nós mesmos.
E isso não é só com as pessoas, não ficamos satisfeitos de nos manter presos dentro de nossas casas com nosso consumismo, nos escondendo de nossos próprios erros. Fazemos isso com os animais, e ainda pagamos pra ver o que fazemos. E isso é mesmo uma loucura. Sem perceber, nos achamos superiores quando, na verdade, parecemos irracionais e inferiores a eles.
Somos inferiores porque eles são presos por imposição e nós por pura distração. E aqueles que disputam pela jaula mais bonita? Já nós, diríamos que o lugar mais bonito é o planeta terra. Não sabemos o que você pensou escrevendo essa crônica, mas em nossas cabeças, vieram várias ideias.
Beatriz e Marina

Reação 6

Alexandre e Gabriel Brandão

Cartas ao Mia Couto
Caro Mia Couto, concordamos plenamente com você. Aprisionar os animais não faz o humano o melhor ser. Os humanos são animais, não poderão se achar os melhores. Todos os humanos que prendem os animais por diversão, deles ou das crianças, são piores que os animais que seguem seus instintos.
Se os humanos são animais, por que não experimentam, não se prendem em pequenas jaulas? Se os humanos são animais e vivem livremente, por que os outros animais não podem viver livremente também ?
Sinceramente, achamos que animais e humanos podem viver em conjunto.
Gabriel Brandão e Alexandre

Reação 7

Carolina e Luiz

Mia Couto,
Nós, alunos da Sá Pereira, do oitavo ano, achamos muito interessante a forma como você fala sobre o sofrimento dos animais no zoológico. Achamos muito criativa a ideia de citar que não há nada lógico no zoológico. Porém observamos que os trocadilhos feito com os animais acabaram sendo muito forçados, infantis, e até um pouco sem graça. Agora, concordamos, achamos totalmente errado os que se dizem racionais, os humanos, viverem livres fazendo o papel de observador de seus prisioneiros.
Carol e Luiz

Reação 8

Helena Telles e Maria Eduarda

Caro Mia Couto,
Lemos seu texto ” No zoo-ilógico” durante nossas aulas de português. Concordamos com suas críticas, e achamos que suas comparações são válidas. Achamos que o problema da liberdade é um dos mais importantes em nossa sociedade, não acha? Nossa liberdade, reivindicamos desde os tempos antigos, você acha que já conseguimos um pouco? Você, que é biólogo, acha que os animais não pensam mesmo? Achamos inaceitável, e um tanto egoísta pensarmos que só nós possuímos a “arte” de pensar.
Agradecemos pelo seu texto e pela sua atenção,
Carinhosamente, Helena e Maria Eduarda

Reação 9

Laura, Maria Helena, Eduarda e Alice Amana

Caro Mia Couto,
Sua crônica, que tivemos oportunidade de ler na escola, é muito comovente, cada palavra expressa o que nós sentimos quando vamos ao “zôo- ilógico”. Realmente, nós percebemos que os animais são absurdamente maltratados e estão sem nenhum cuidado, presos contra a sua vontade, despejados em jaulas e impedidos de viver como animais. Como pode animais tão lindos, feitos para voar, presos em gaiolas tão pequenas? Tigres tão fortes sem possibilidade de correr, saltar e caçar?
Seu texto, com certeza, retrata o tamanho da desumanidade do ser humano que, a partir do momento em que passa a viver em grandes cidades, se afasta da natureza e passa da condição da única espécie de animal racional para uma espécie que desmata, aprisiona, destrói e até coloca em risco a própria espécie humana.
Bom, para nós, seu texto é exatamente o que pensamos, mas escrito com lindas palavras.
Atenciosamente,
Laura, Maria Helena, Eduarda e Alice

Reação 10

Gabriel Labouret

Caro Mia Couto, li sua crônica e gostei das relações que você faz com o cotidiano. Mas uma me chamou atenção, em especial ” homens em humanização. ” Isso me fez refletir se o homem evoluiu mesmo durante esses anos. Óbvio que em questões tecnológicas evoluímos, mas e em questão de compaixão, honestidade etc…?
Penso que o homem, ao longo dos anos, desevoluiu. Ele mata, pratica corrupção e não se importa com o outro. Você concorda? O homem evoluiu e desevoluiu, em sua opinião ?
Do seu admirado leitor, Gabriel.

Reação 11

Carta a Mia Couto

Dora e João Pedro

OBS : erros gramaticais foram escritos intencionalmente.

Minha mãe me mandara uma carta, mas não para mim, e sim para meu chefe. Ela começava simpática : ” Prazer, sou Adalmeida. – mas continuava gritando através de suas palavras – Olha aqui, você está maltratando meu picurrucho…” Respirei fundo e abri a próxima carta.
“Mia Cato, não gostei de suas comparasão – Que comece o ataque ao português – , a que mais não gostei foi a du galo. Pra comessar sou muito cavalero. E, também, só os bicho que cisca, eu como, como tudo, menos as partes iniportantes – Será que secretários têm direito a suicídio? – , que elas guarda comsigomermo… – A carta ainda continuava, entretanto, graças a aquele que nunca acreditei, o meu expediente havia acabado.

Reação 12

Arthur e Antonio Nunes

Sr. Mia Couto, ficamos indignados com a sua colocação de que os homens são ruins. Eu sou da tribo “Luko Laki”, aqui só temos pessoas do bem, que tratam todas as pessoas com respeito, principalmente as mulheres. Eu sou o cacique dessa tribo de 400 habitantes. Confesso, já fui morador da cidade e costumava desrespeitar as pessoas por lá. Até que um dia fui tão grosso com uma criança e me dei conta de que estava sendo muito vulgar. Por isso, abandonei a cidade e voltei para a tribo “Luko Laki”. Assim, me transformei todo em uma pessoa gentil, por isso acho que todos podem se transformar.
Arthur e Antonio

Reação 13

José e João Lins

Caro Mia Couto,
Primeiramente, queremos contar-te que adoramos seu texto “Zoo ilógico” publicado recentemente no jornal moçambicano. Quando lemos seu texto, ficamos impressionados com a diversidade de trocadilhos e como eles eram bons. Gostamos também do seu jeito de criticar algumas coisas, meio irônico e engraçado. Gostaríamos que você escrevesse mais textos como esse.
Abraços,

José e João.