Em sala

Após diversas discussões a respeito dos conceitos de verdade e mentira, as F9 pensaram em situações em que é difícil ter clareza sobre o que é ou não sincero, quando o real escapa à definições. Alguns alunos encontraram, nos poetas, modos mais complexos de pensar a verdade e a mentira. Encontraram em Fernando Pessoa que “O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente”. Também descobriram com Manuel de Barros que “Tudo o que não invento é falso”. As produções trouxeram reflexões muito sensíveis e maduras. Aproveitem.

Quem confia, acredita

Falar sobre a verdade não é fácil, pois, muitas vezes, não sabemos afirmar nem se a verdade é realmente verdadeira. Pense nessa situação. Você está andando pelas ruas quando encontra com um homem de chinelo, bermuda e uma camisa velha. Gravando com um celular, esse homem te conta uma notícia absurda e ilógica e pede sua opinião. Você, muito provavelmente, não vai dar ouvidos a nada do que ele disser e vai somente seguir seu caminho. Mais à frente, dessa vez, duas pessoas te param. Uma operando uma câmera profissional e a outra usando um terno, apontando para você um microfone. A dupla te diz a mesma notícia que o homem de antes. Agora, a chance de se acreditar é muito maior, pois a fala veio de uma equipe profissional. Imagine se a equipe tivesse lhe parado antes. Você, com quase toda certeza, acreditaria em qualquer um que lhe dissesse isso sem seguida.
Acontece que a verdade está diretamente ligada ao sentimento de confiança. Podemos assim dizer que a verdade é um sentimento. Em quem você confiaria mais, em um homem que parece estar usando seu pijama ou em um repórter? O sentimento de confiança pode vir de vários fatores como a aparência, experiência pessoal, entre outros. Isso cria um problema. Essa confiança pode ser usada para criar uma verdade falsa: a mentira. A mentira não passa de uma verdade para quem acredita nela. Assim, por mais que exista somente uma verdade, essa mesma pode ser relativa. Por exemplo, em 2009 foi declarada a morte do cantor Michael Jackson. Porém, há pessoas que acreditam que ele não morreu. Apenas uma versão é a verdadeira verdade, mas há duas verdades, ambas verdadeiras para quem acredita, para quem confia.
Independentemente de como vamos analisar a verdade, sempre voltamos a falar de confiança, pois quem acredita que Michael não morreu, confia nas fontes onde viu a informação. Assim como quem recebe a mesma notícia de um estranho qualquer e de um repórter, sem dúvida vai confiar mais no repórter. Enfim, podemos afirmar que a verdade, falsa ou não, depende da confiança.

Gabriel Teixeira F9T

A encenação positiva e negativa

“O poeta é um fingidor/Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente.// E os que leem o que escreve,/ Na dor lida sentem bem,/ Não as duas que ele teve,/ Mas só a que eles não tem.// E assim nas calhas de roda/ Gira, a entreter a razão,/ Esse comboio de corda/ Que se chama coração.”
Fernando Pessoa
Se a verdade é uma encenação, somos nós que incentivamos isso, mesmo que inconscientemente. O poema de Fernando Pessoa retrata o próprio poeta representando-se e representando outras poetas, com quem qualquer pessoa pode se identificar, trazendo a ideia de que o poeta finge tão fortemente que essa mentira é o que se torna verídico. Trazendo características e particularidades de cada um, o autodescobrimento e o descobrimento de um com o outro chegam a partir disso.
Por outro lado, a encenação da verdade pode ser muito aprisionadora. Ela pode ser um fingimento que restringe a comunicação a pensamentos e comportamentos automáticos. Convenções sociais podem fazer você sempre dizer e responder as mesmas coisas, independentemente de como você esteja se sentindo.
A verdade e sua encenação podem ser vistas pelos dois lados, porém, sempre terá um pouco das duas, cotidianamente.

Hanah F9M

Falsa verdade

Não é comum ver um homem de 70 anos de idade viajando em um trenó, puxado por renas mágicas, entregando presentes para as bilhões de pessoas espalhadas nesse imenso mundo. Muito menos uma fábrica de coelhos produzindo ovos de chocolate, escondendo-os e deixando pegadas para as crianças encontrarem.
Essas histórias não são simplesmente uma mentira, pois não possuem más intenções. Pelo contrário, têm o interesse de fazer cada um viajar na sua imaginação, independente de ser ou não real. Todo mudo sabe que o coelhinho da páscoa e o papai noel não existem. Mas, mesmo assim, acreditamos nessa fantasia. Aproveitamos tais datas para nos reunirmos com parentes distantes, com os quais não temos tantas afinidades.
Enquanto você vive essa ilusão, o clima é feliz, agradável e tranquilo. As indústrias aproveitam essas festas para manipular e lucrar. Já os adultos envolvem as crianças para que vivam o sonho.
Muitos filmes também utilizam as mesmas ideias para contar suas histórias. Construir e desconstruir acontecimentos, produzindo uma sensação de suspense e curiosidade no espectador. Um grande exemplo disso é o curta “O Sanduíche”, de João Furtado, que manipula o que é e não é verdadeiro.
Nem todas as encenações da verdade giram em torno da alegria, algumas conseguem ser assustadores como os “fantasmas”. Nunca cheguei a ver um espírito na minha vida, como também espero não encontrar nenhum… Porém, existem pessoas que afirmam ter visto. Esses indivíduos podem ser conhecidos como malucos ou sujeitos com uma sensibilidade diferente. Muitos acreditam que isso é fruto da imaginação, mas pode não ser.
Cada um aceita aquilo que acha verdadeiro. Com mais de bilhões de pessoas espalhadas no mundo, pensando diferente, é difícil achar alguém que acredite na mesma coisa que você. O importante é que a encenação da verdade não é algo negativo. pois, o mundo é muito grande e dentro dele cabem milhares de possibilidades de surgimento das coisas, das criações do mundo, etc. Fortalecendo uma coisa que todo ser humano tem, a imaginação.

Felipe F9M

A brincadeira de se imaginar

Encenação é um ato de criar uma cena dentro do contexto do teatro. Porque é lá que dialogamos, contamos história e é onde treinamos a nossa fala. Mas também conseguimos enxergar em nosso cotidiano várias formas de encenar. Como por exemplo: Papai Noel, Casamento, Coelhinho da Páscoa entre outros personagens.
Na minha opinião, acho importante ter um personagem na nossa “cabeça”, pois às vezes passamos por situações não agradáveis em que se, de repente, consigo lembrar de algum personagem, o dia fica um pouco melhor, mais fantasioso. É a brincadeira de viver, de se imaginar, de sonhar.
Na encenação conseguimos fazer essa brincadeira, pois toda hora temos que brincar de ver uma cena acontecendo, naquele momento. Eu gosto muito de brincar de me imaginar, pois saio um pouco do “ar” e esqueço as outras coisas que estão acontecendo.

Bia F9M

O medo do improviso

A encenação da verdade não é exatamente uma mentira. A palavra “mentira”, normalmente,nos traz impressões muito ruins, de enganação e falsidade, enquanto a “encenação da verdade” não é necessariamente uma coisa negativa.
A encenação da verdade está presente no nosso dia a dia através, por exemplo, de algumas comemorações, como o casamento. Quando o casal vai para o altar, a noiva sempre “se atrasa”, por isso entra depois. Além disso, todos têm “falas”, como em um roteiro. O padre faz o discurso, pergunta se os noivos aceitam, eles dizem “sim” e estão casados. Pronto. Sempre assim. Praticamente todo casamento. Eu acho que isso é uma questão de cultura. O casamento é ensaiado há décadas, e isso já ficou natural. Mas, na minha opinião, talvez seja tudo tão roteirizado porque as pessoas têm medo do improviso. Acham que se deixar para inventar na hora não vai sair tudo tão “perfeito”. Por isso, querem ter total controle sobre a situação. Para acontecer tudo conforme os planos.
Assim como o casamento há também a festa junina. Na hora da quadrilha, o objetivo era formarem-se pares para dançar e fazer os passos que a pessoa com o microfone manda. Não era para ser ensaiado. Mas estão todos tão acostumados com a dança, que já esperam o que a voz vai dizer. Principalmente naquela hora da quadrilha que a pessoa grita “olha a chuva!” ou “olha a cobra!” e todos devem gritar e se cobrir de medo, esperando a voz exclamar que era mentira e as duplas poderem voltar a fazer tranquilamente seu caminho.
Outro exemplo de encenação da verdade é o que chamo aqui de “conversa com roteiro”. Essa pode se dar nas seguinte situação: Quando você vai ter uma conversa importante com alguém e não sabe o que vai dizer, você pode pedir para algum amigo te ajudar, assim vocês formulam as “falas” e fazem um pequeno “roteiro” do que você vai dizer na conversa. Isso porque é muito mais fácil ter uma fala pronta na cabeça do que estar lá, em frente àquela pessoa, e ter que inventar o que dizer na hora. Mas, será que as melhores coisas não acontecem sem planejamento? Será que os melhores sentimentos não vêm quando alguém faz algo que te surpreende, ou você mesma toma uma iniciativa que não tinha previsto?
A verdade é que a vida não é ensaiada. Mas, em algumas situações, é tudo tão pronto que vira quase que uma encenação da verdade. Mas, apesar de tantos ensaios, a vida sempre nos traz algo surpreendente… estaria aí a verdade?

Lia F9T

Códigos para fazer a vida andar

Na nossa sociedade, a verdade é algo moral. Somos educados a sermos verdadeiros e honestos, porque “mentir é coisa feia” (uma frase que toda criança ouve e/ou já ouviu). Mas até que ponto a verdade é suficiente? Em que momento a “mentira” passa a ser necessária e até normal? Quando isso acontece?
Em sala de aula, vimos algumas cenas do filme “O Quarto de Jack”. A mãe de Jack, Joy, esconde do filho os tristes motivos deles estarem naquele quarto. Ela cria um imenso universo e o põe em prática todos os dias, durante cinco anos. Joy inventa um mundo seguro e calmo, onde ela poderia criar seu filho e protegê-lo. Ela mentiu para ele? Não. Ela apenas produziu a verdade, pegou algo já existente e o aperfeiçoou. E o que Joy criou era real para Jack. A verdade e o real não são a mesma coisa.
Na nossa vida, usufruirmos muito dessa produção da verdade. Em ocasiões como páscoa, natal, casamentos etc, nós sempre tentamos forçar um sorriso para não criar um clima tenso na família (mesmo querendo brigar ou discutir). Nós fingimos que botamos nossas diferenças de lado e tentamos fazer aquela ocasião ser menos exaustiva. Tentamos não ficar bravos, não discutir política ou falar que Toddy é melhor que Nescau. É como um código que a gente segue sem nem saber que seguiu. Essas “regras de etiqueta” são algo tão forte na sociedade que ninguém se pergunta o porquê de segui-las. Virou normal.
A grande questão é que uma mentira ali, uma produção da verdade aqui, não são grande coisa. Nós precisamos disso para a vida andar. No mundo em que vivemos, ninguém consegue ser verdadeiro o tempo todo.

Tereza F9T

Encenação da verdade ou mentira?

Na minha opinião, na vida é necessário “usar” a encenação da verdade em alguns momentos. Não que eu ache isso certo, até mesmo porque eu nunca gostei que não me dissessem a verdade (ou seria a mentira?)
Um exemplo de encenação da verdade são as campanhas eleitorais dos políticos no Brasil. Apenas falam seus projetos de governo e não cumprem nada, um absurdo. Acho que tem a ver com isso também o caso das propagandas enganosas, que estamos tão acostumados a ver na mídia, tanto que nem percebemos mais que são outros jeitos de encenação da verdade. Por exemplo, a propaganda de um produto de limpeza que mostra que retira todas as gorduras das panela, mas, na verdade, não tira nada.
Para mim essas “formas” de encenação da verdade citadas acima são exemplos “não saudáveis” desta prática para as pessoas. Mas existe um outro tipo de encenação da verdade (ou mentira, podemos dizer) que talvez não seja saudável, mas sim necessária – especialmente na infância. Que é a “historinha” do Papai Noel, um mito que é contado às crianças durante suas infâncias? Enquanto você acredita nele é maravilhoso, mas quando você descobre que é apenas um mito, não é muito legal.
Quando eu descobri que o Papai Noel não existia, acho que foi um dos piores dias da minha vida! Lembro que no dia desta descoberta eu chorei por umas três horas seguidas, foi péssimo. Mas às vezes sinto que esse sofrimento todo valeu a pena, pois durante minha infância inteira acreditei e fui sempre muito feliz e sorridente, ficava com os olhos brilhando quando o assunto era Papai Noel!

Rafael Prado F9M

A mentira em nossos cotidianos

Quando somo crianças, nós acreditamos em tudo. Acreditamos em papai Noel, fada do dente, coelhinho da páscoa, dragões que cospem fogo, bruxas e muito mais. Nessa faixa etária, nossa imaginação é muito fértil porque ainda temos muito espaço em nosso cérebro a ser ocupado. No começo, só existe verdade, pois ainda não conhecemos formalmente a mentira. Mas quando começamos a ter uma noção melhor de mundo, nós começamos a questionar: Como um velhinho consegue entregar presentes para todas as crianças em uma só noite? Como um coelho consegue soltar ovos de chocolate? Pra que que uma fada precisa de tantos dentes? Quando não achamos respostas, começamos a suspeitar e, mais cedo ou mais tarde, descobrimos que tudo aquilo de fantástico que acreditávamos não é real. É aí que temos o nosso primeiro encontro com a mentira.
Com o tempo, nós viramos íntimos da mentira e a verdade não passa de uma velha amiga daquelas que você quase nunca encontra. A mentira e a encenação da verdade viram parte de nosso cotidiano. Nós as encontramos em conversas, festas tradicionais, na arte, até na nossa própria boca. Por exemplo, convenção e rituais como festas de casamentos católicos são uma encenação da verdade, pois a cerimônia é ensaiada e treinada durante dias, mas é para parecer que foi tudo natural e nem um pouco planejado. No entanto, quase toda festa de casamento é igual, o noivo entra na igreja com sua mãe, depois o pai do noivo e a mãe da noiva, os padrinhos e as madrinhas entram e, por último, a noiva, sempre propositalmente atrasada para fazer uma entrada triunfal.
Nós também podemos esbarrar com essa encenação em uma conversa, quando a pessoa pergunta ‘’tudo bem? Nossa, quanto tempo, que saudades! A gente tem que marcar algum dia desses.’’ , mas você sabe que, na verdade, ela não liga se está tudo bem ou tudo mal, ela provavelmente esqueceu seu nome e vocês, com certeza, não vão marcar de se encontrar. Essas coisas são daquelas que falamos apenas por educação, que vira quase um roteiro de bons modos, com falas ensaiadas para esses tipos de ocasião.
Existe aquela mentira que você conta para não magoar os sentimentos de alguém, aquela que você conta para não se meter em problema, ou uma mentira que faz você parecer mais legal. Ainda tem daquelas que você conta para si mesmo e daquelas que você usa pra tentar explicar alguma coisa que simplesmente não tem explicação.
A mentira está em todo o lugar, mas afinal, o que é mentira? A mentira nada mais é que omissão ou a distorção do que é reconhecido como verdade. A palavra mentira é sinônimo de engano, impostura, fraude, falsidade, ilusão, ficção, dissimular, entre outras que tem sentido de inverdade, do que não real. O que, normalmente é dado como completa e absoluta verdade é a ciência, pois é uma verdade comprovada. Mas existem várias verdades, cada um tem a sua verdade. E a sua verdade reflete a sua visão de mundo, que é diferente da do seu amigo. Por isso, precisamos sempre respeitar as perspectivas dos outros. Este texto, por exemplo, é apenas uma reprodução da minha verdade.

Julia Brito F9T

É confiável mesmo?

Nós somos rodeados de mentiras. Nascemos, crescemos e envelhecemos entre elas. Por que não as notamos? A resposta é: pois elas estão escondidas atrás de uma máscara poderosa. Essa máscara pode até ser poderosa, mas ela sempre cai, e quando cai a gente descobre da pior forma que o que a gente acredita ser certo, é ruim ou errado.
Um dos maiores exemplos da atualidade vem do slogan “carne confiável tem nome”. Todo mundo já tinha ouvido isso, e todo mundo acreditava que realmente era de qualidade, mas você sabe o que aconteceu… Esse é um exemplo atual, mas há muito tempo que as propagandas nos enganam e a gente continua caindo nelas. Na década de oitenta, a marca de cigarros Hollywood era conhecida pelo seu slogan “Hollywood, ao sucesso”. Sua propaganda dizia que seu cigarro o levaria ao topo, sempre sendo utilizado por homens e mulheres com ótimos físicos e gente rica em suas propagandas.
Nossa comida é uma farsa, nosso corpo é uma farsa, ou você realmente acha que os seus dentes vão ficar mais brancos com uma semana de escovação? Nossa cidade é uma farsa, ou você realmente realmente acha que nós estamos em uma cidade maravilhosa? Eles escondem toda a violência, corrupção, desigualdade atrás de um cartão postal bonito. Enquanto estivermos sob o efeito desse sistema político e econômico que beneficia esse tipo de engano, nós estaremos permanentemente presos a essas mentiras.

Gabriel Riani F9M