Essa é a nossa segunda edição deste informe construído depois de diversas discussões a respeito dos conceitos de verdade e mentira, as F9 pensaram em situações em que é difícil ter clareza sobre o que é ou não sincero, quando o real escapa à definições. Alguns alunos encontraram, nos poetas, modos mais complexos de pensar a verdade e a mentira. Encontraram em Fernando Pessoa que “O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente”. Também descobriram com Manuel de Barros que “Tudo o que não invento é falso”. As produções trouxeram reflexões muito sensíveis e maduras. Aproveitem.

O que é verdade?

Desde que os humanos existem, existem verdades inventadas. Não se trata de mentiras, porque pessoas realmente acreditavam e ainda acreditam nessas histórias. Um exemplo são os livros religiosos.
Uma dúvida que sempre existiu é como o mundo foi criado. Cada cultura vai responder a essa pergunta de um jeito. Uma religião vai dizer que um Deus criou as coisas, outra vai dizer que muitos deuses foram os criadores, a ciência diz que foi o Big Bang que gerou tudo. E alguém pode garantir e provar que alguma dessas histórias é mais certa que outra?
Os “rituais” funcionam como peças de teatro. É preciso ter o figurino certo, decorar as falas, etc. Um casamento, por exemplo, é todo ensaiado. Tem uma ordem específica para as pessoas entrarem, saírem, esperarem, se atrasarem, falarem, etc.
Refeições em família também têm esses protocolos. Você chega e cumprimenta todo mundo como se estivesse com saudades (mesmo que não esteja), conversa com as pessoas de um jeito muito feliz por um tempo, depois todo mundo come, elogia a cozinheira, conversa mais um pouco e vai embora. Aí você começa a reclamar da família de novo. Em festas como o Natal, a Páscoa, além dessas coisas, tem personagens mágicos feitos para as crianças acreditarem em coisas impossíveis. Será? “O Papai Noel vai te dar presentes!”, “O coelho da Páscoa vai te dar chocolate!”, mas só se você se comportar… Isso também acontece em igrejas, onde as pessoas são obrigadas a dar dinheiro e fazer um monte de coisas porque, de acordo com o padre, quem não fizer vai para o inferno. Outra coisa que ajuda no controle de crianças é o folclore, todas as crianças têm medo da Cuca ou do Saci.
Eu não sei se isso é bom ou ruim. Para pessoas com muitos problemas, acreditar em coisas que aparentemente não existem é uma forma de facilitar a vida, como no filme O Quarto de Jack, em que a mãe faz aquele quartinho ser bom para o filho, mas isso também pode ser uma forma de controlar as pessoas.

Nicholas Carrera – F9T

Por trás da verdade

Quando acontece algo, perguntamos para as pessoas presentes: o que aconteceu? Então criamos hipóteses para saber se a pessoa está mentindo ou não. Pode ser que também não seja verdade o que ela está falando, mas é só o que ela acha.
A encenação da verdade geralmente acontece quando não temos certeza de algo. Então damos palpites e aquele que tem mais chances de ser real, nós geralmente acreditamos. Um exemplo disso é o método científico. Os pesquisadores estudam e tentam encontrar o palpite mais próximo do que parece real.
Um outro exemplo está relacionado às crianças que estão em sua fase mais criativa. Elas precisam ser incentivadas a imaginar para que não percam isso. Podemos contar histórias para elas para incentivar isso. Mesmo as pessoas que achem que, por exemplo, fadas não existem, tem gente que diz que existem. Então temos de escolher qual versão da história queremos acreditar. No caso da criança, não que o que ela ache não está certo e não seja verdade. Para uns é, para outros não, pois cada um interpreta de sua forma.
Queremos sempre saber a verdade, o que aconteceu. Mas nunca teremos absoluta certeza de algo. Quando sonhamos, o nosso subconsciente toma conta dos nossos pensamentos e nos conta “história” baseada nos medos, pensamentos, sensações e vontades de quem está sonhando. A quele sonho ou pesadelo, de que você pode lembrar ou não, muitas vezes fica na sua mente e você fica se questionando se ele aconteceu de verdade.
Cada religião e cultura tem sua forma de ver e experimentar o mundo. A criação do universo, de onde viemos e quem somos? Muitas difíceis perguntas podem ser feitas. Temos as interpretações das ciências e dos mitos de criação. Mas como saber a verdadeira se ninguém estava la para ver a Terra sendo criada?
Às vezes nos sentimos obrigados a aceitar tal verdade, pois a maioria acredita nela. Às vezes queremos “prender” a nossa imaginação que estaria inventando ou interpretando algo. Podemos nos sentir bobos ou infantis por estarmos imaginando algo aparentemente impossível. Podemos ficar envergonhados disso e querer “prender” a nossa imaginação.
A encenação da verdade é um assunto complexo de ser debatido. Temos que abrir os olhos para as possibilidades, mas não confundi-las com a imaginação. Quando perguntamos se podemos confiar em tal pessoa, ou não confiamos ou nos arriscamos, que é o caso de você, leitor, que confiou em minhas palavras até aqui!!! Porém… quem disse que estou falando a verdade? Só estou interpretando ela.

Joana Lins – F9T

Quantas realidades o real tem?

O que há no filme O Quarto de Jack? Há uma mulher que foi sequestrada por um estuprador, e essa moça mora em um quartinho minúsculo nos fundos da casa desse sujeito há sete anos. Além da moça, também vive no quartinho seu filho, Jack, de apenas cinco anos, que veio ao mundo fruto dessa violência e não tem a menor ideia de como é o real de fato, ou seja, não sabe de sua complexidade. Acha que o mundo se resume naquilo ali, no qual ele vive, diferente de sua mãe, que já tinha vivido fora daquela prisão.
A mãe não revela ao filho a situação na qual eles estão, até mesmo porque ele não teria condições de compreender, deixa-o entendendo o mundo de sua forma. Mas com base no que influencia, pois cria uma realidade diferente do que chamamos de real para seu viver. Juntos inventam um mundo menos hostil, uma realidade paralela. Até que ponto essa invenção é uma mentira? Ou será que ela ajeitou tudo para tornar aquela prisão algo menos sofrido, triste e pesado? Essa encenação que a mãe faz da verdade talvez seja uma necessidade porque ache seu filho muito novo para saber, entender e aguentar a “verdade verdadeira”, por isso encena, para protegê-lo.
Não tinha uma opinião formada sobre isso, se o que a criança faz é extremamente mentira ou não. Parece que dentro do real, que é uma coisa muito grande, é um todo que nunca conheceremos por inteiro, há várias realidades que o compõem.
Uma pessoa vive numa parte (numa realidade), pode olhar para outra parte (outra realidade) e achar que é mentira, invenção ou coisa sem importância, mas para quem vive, não é. Quando eu era pequeno, por exemplo, minha mãe dizia: “Meu filho, essas coisas só existem na sua imaginação.” Ela disse que eu respondia: “Mas o que a gente imagina também existe, mamãe.”
Talvez seja isso: imaginar também pode ser uma forma de verdade.

Artur – F9T

A Verdade por Trás da Coroa

Muitas meninas querem ser uma princesa quando crescerem, pois a TV e o cinema passam uma imagem ideal desse mundo: castelos, viagens, roupas maravilhosas, muita liberdade e um príncipe encantado para viverem um “felizes para sempre”. Esse é um mundo construído para a ficção, só que na vida real não é tão maravilhoso assim, pois elas devem seguir um rígido protocolo quando estão em público. Na maioria das vezes elas sequer conhecem essas regras.
Segundo o protocolo, uma princesa não pode chorar em público, não pode aderir a esmaltes do momento – só pode usar esmaltes claros. De acordo com o protocolo usado pela Família Real britânica, por exemplo, Catherine Middleton, Duquesa de Cambridge, casada com o herdeiro do trono real britânico Príncipe William, deve andar dois passos atrás do marido e, pela regra, nunca pode aparecer mais do que ele.
Os contos de fada são narrativas muito antigas e possuem inúmeras versões. Criam um outro mundo bem distante do real, deixando o protocolo e os problemas da vida real de lado. Sem eles, a história pode ser idealizada. A ficção, portanto, encena histórias a partir de uma determinada verdade do que é bem e mal, herói e vilão, justo e injusto.
A verdade também pode ser reconstruída por meio de valores, protocolos, leis, regras e símbolos. Coroa, manto, trono e cetro compõem um cenário que fornece um ambiente de autoridade para os reis. A nobreza tem o privilégio de se distanciar de nós e principalmente do plebeu e essa é uma verdade construída no tempo e que se reafirma por meio da imaginação de histórias e de símbolos.
No dia a dia certas situações procuram marcar essa “diferença”. Na minha opinião, andar atrás do monarca implica em uma relação de inferioridade ao poder do rei. Essa verdade é sempre reforçada em pequenos detalhes. Por exemplo: em pequenos detalhes nas fotos da Princesa Diana e o Príncipe Charles, herdeiro do trono britânico. A princesa está sentada ou, quando em pé, em posição mais baixa do que o príncipe. Na vida real, Charles e Diana tinham uma altura muito próxima, com uma diferença de apenas dois centímetros para ela.
O protocolo adotado revelava um modelo de realeza no qual não só o príncipe era superior à esposa quanto o homem à sua mulher. Mas na encenação de uma verdade sobre o que é ser um príncipe, essa distância ficava muito maior.

Rafaela – F9T

Verdade?

Quando penso sobre produção da verdade, não penso nem em mentira, nem em verdade, e sim em uma história com alguns fatos verdadeiros e outros não.
Hoje em dia, produzir a verdade é muito comum e muitos já devem estar acostumados. Com isso, quando alguém comenta em uma foto “kkkkkk melhor foto” ela pode até ter achado a foto muito boa, mas, com certeza, não é “A” melhor que ela já viu.
Não acho ruim mentir um pouco, desde que não seja uma mentira muito grande. Como por exemplo, quando você fala para uma criança que ela é muito muito rápida, quando, na verdade, ela não é. Você fala para deixá-la feliz.
Porém temos que tomar cuidado, pois você pode ser visto como uma pessoa mentirosa e pouco confiável, ou até magoar uma pessoa sem querer. Como quando você altera várias coisas pequenas, tantas, que você não tem mais nada realmente verdadeiro.
E pensando bem, nós todos produzimos a verdade, pois quando contamos e falamos uma história ou fatos, isso é feito por um só ponto de vista, o nosso. É muito importante ouvir o lado de cada um, e tentar entender melhor a história como um todo e as razões das pessoas fazerem o que fazem.

Marina R – F9T