Junho de 2013

A Proposta

Os textos a seguir foram criados a partir do conto “Famigerado”, de Guimarães Rosa. Trata-se de uma produção do início do ano letivo, quando discutíamos acerca das relações entre o projeto institucional “transformações” e a linguagem. Aos estudantes foi proposto – após lerem o conto e assistirem ao curta – a criação de um narrador observador da cena, que contasse o que viu, obviamente, a partir de seu olhar. Muita conversa se deu em torno das observações sobre o conteúdo e a forma adequados ao narrador escolhido. Recomendamos a leitura do conto para melhor apreciação dos textos produzidos, você poderá encontrá-lo no link:
http://www.releituras.com/guimarosa_famigerado.asp

Narrador Observador: Deus

Por: Pedro Sá e Tomás

Eu, Deus, olhando o que está a acontecer, deparo-me com uma cena horrorosa! Um jagunço e três companheiros indo em direção à casa de um pobre médico.
Assustado sem saber o que iria acontecer, parei e observei. O jagunço ansioso, irritado e com medo – um medo diferente, um medo da incultura e da pouca sabedoria – contou a história que tanto o angustiava. Um homem o chamou de “famigerado”! Mas, o jagunço nem sabia falar a palavra direito, quanto mais ele tentava articulá-la, mais irritado ele ficava por não conseguir. Tive a impressão de que o homem mataria o médico.
Então, coloquei na boca do médico a palavra que o angustiava, pois, estava muito nervoso com a situação.
“Famigerado?” – o médico perguntou. O jagunço aliviado começou a gritar repetindo a palavra, várias e várias vezes.
O jagunço, confuso, pergunta: “o que é famigerado?” e o doutor não sabia a resposta. Eu, Deus, não sabia o que ia fazer, pois, ele, o médico, iria morrer, então, com pena, sussurrei a palavra ao seu ouvido: “Notável, conhecido, célebre”. O homem não entendeu o que o médico disse, então, numa última tentativa disse: “famoso”. Mas, mesmo assim, o jagunço, com dúvidas, perguntou: “é coisa boa ou ruim?” Eu já ia colocar a palavra na boca do médico, mas ele respondeu sem a minha ajuda: “tem dias que eu gostaria de ser famigerado”.
O jagunço, feliz, saiu correndo contando a novidade para todos.
Nesse dia percebi que a humanidade era boa. Aliviado, descansei…

Narrador Observador: Jerenice, cozinheira do médico

Por: Antonia, Marina e Rosa

– Ô Jerennice! Os bolinhos já estão saindo!?
– Já tão chegando, seu doutô!
Ô impaciência disgrameira!
– Jerennice, a campainha!
Ih, Jesus! A feijoada vai queimá! Peguei os bolinho e fui atender. Ôxi, casa grande! Abri a porta.
– Ave Maria, o homi tá armado!
Era um sujeito grande e barbudo, acompanhado por três cabra macho, tudo montado em cavalo.
– Seu doutô, vosmecê tem visita – virei pro homi – o sinhô aceita um café?
– Aceito. – Saí correndo pra cozinha, peguei uma faca e botei no avental. Vosmecê não sabe como sou medrosa! Vai que o sinhô tinha intenção errada! Mió rezá! Doutô tava conversando com o barbudo que queria uma explicação explicada…
“Vosmecê que não me conhece. Damásio, dos Siqueiras… estou vindo da Serra.”
Será que meus ouvidos me enganaram!? Damásio, o matador!? Jesus!! Fui aproximano meus ouvido da porta…
“Vosmecê agora me faça a boa obra de querê me ensinar o que é: fasmigerado, faz-me gerado, família gerado…” Eita palavra difícil!
“Famigerado?”
“Sim, sinhô.”
Daí então, o homi repetiu gritano a palavra tantas vezes que não consegui nem contá e meus ouvido ficou até doído!
“Bom, famigerado é inóxio, célebre, notório!”, falô o doutô com a inteligência toda dele. Nunca vi homi que mais sabia das coisa na vida!
Eita! Bando de palavra difícil que seu doutô tava falano, num entendi nadinha do que saía da boca dele!
“Vosmecê mal não veja em minha grossaria no não entender. Mas me diga: é desaforado? É caçoavél? É de arrenegar? Farsância? Nome de ofensa?”
“Vilta nenhuma, nenhum doesto. São expressões neutras, de outros usos…”
“Pois… e o que é que é, em fala de pobre, linguagem de em dia-de-semana?”
“Famigerado? Bem, é importante, que merece louvor, respeito…”
“Vosmecê garante, pra paz das mães, mão na escritura?”
Vixe, meu Deus do céu! Me isquici do café do homi!
“Olhe: eu, como o sr. me vê, com vantagens, hum… o que eu queria uma hora dessas era ser famigerado, bem famigerado o mais que pudesse!”
“Ah, bem”
Depois disso desgrudei minhas orelha da parede, peguei a bandeja com o café, e fui me entrano na sala onde os dois ainda conversavam. Os dois me olharam e seu doutô logo disse:
“Que demora, hein, Jerennice!”
Toda sem jeito, voltei pra cozinha pra vê minha feijoada que já tava pra lá de queimada! Seu Damásio ficou ali por mais uns tempo, tomou uns 2 ou mais cafezinho e foi-se com o seu cavalo sendo seguido por seus 3 cabra.

Narrador Observador: Miguelim

Por: Davi

Eu estava quieto no meu canto, observando as formigas, quando dou uma olhada pela janela, e vejo quatro cavaleiros. Fiquei com muito medo, pois um deles estava levando uma arma, e tinha uma barba assustadora demais. Esqueci as formigas e continuei olhando para eles. Eu estava nervoso demais da conta.
O cavaleiro que carregava a arma deu um grito, chamando pelo doutor. Ele falou que não estava doente, e não aceitou o convite para entrar. O moço falou que queria saber o que queria dizer uma palavra bem estranha, e que tinha cara de xingamento. Neste momento fiquei com mais medo ainda, pois eu achei que se o doutor falasse que a palavra era um xingamento, ele poderia ficar muito bravo e querer matá-lo.
Neste momento, não aguentei e me levantei para me aproximar da janela. Mas, enquanto eu estava indo em direção à janela, tropecei e caí, fazendo um barulhão. O bandido descobriu que eu estava vendo tudo, e falou bem irritado:
– Quem é esse garoto?
– É o Miguelim, filho da empregada. Respondeu o doutor.
Eu fingi que estava indo embora, mas continuei espiando, só que agora, eu estava com mais medo ainda.
O doutor continuou enrolando, sem dizer o significado da palavra. Isso só fez eu achar que não era uma coisa boa. O tempo foi passando, o doutor enrolando, e eu ficando mais nervoso.
Mas, por fim, o doutor falou que a tal palavra queria dizer famoso. O bandido foi embora muito feliz, por ter sido chamado de famoso.
Quando ele foi embora feliz da vida, eu pude ter certeza de que esse bandido era realmente muito ignorante, pois até eu tinha percebido que este “famoso”, de que ele tinha sido chamado, não tinha sido um elogio, e sim dizer que ele era um bandido muito famoso e procurado.

Narrador Observador: Damázio

Por: Bia

– Ocê é um verdadeiro famigerado! – meu nome é Damázio dos Siqueira, e eu não vou deixar um quarquer me chamar de falmigerado, fazmegerados, famisgiraldo… enfim, essa coisa aí…. sem saber o que é isso! Se fô ruim, viajo três dias, três noites, mas não vai ficá barato! Foi assim que tudo começou! Viajei seis léguas pra discobri o que era o tar nome. Com três capangas atrás, fomos sem pará na casa de um médico, dotô, o único que podia me dizê, se esse ninguém me xingou.
Chegando lá, já imundo e cansado, o Sol a descer, ajeitei meu cinto e preguntei o que era famigerado. Ao pensar um instante, ele logo me respondeu. Acho que o medo ajudô. Como sou inteligente, rápido intendi o que era famigerado. Vortei para casa feliz, após uma xícara de café. Ninguém morreu ou ficou ferido. Eu passei a ser o melhor e maior famigerado que o mundo poderia querê!!
– Mas, o que é famigerado afinal??
– Vá lá e descubra ôce mermo. E não se esqueça. Preste atenção, uma dica eu te dô: Famigerado eu sou!!!

Narrador Observador: Uma garota contando sobre a viagem dela para a amiga!

Por: Alice Amana e Duda

– Amiga, você não sabe o que me aconteceu nessa viagem!
– Conta, vai!
– Eu tava passando pela igreja local para visitar, quando vi dois caras discutindo. Como sou muito “curiosa”…
– “Curiosa” é? Hahaha!
– É, haha, enfim deixa eu continuar! …aí como sou curiosa fui ver o que era! Tinha dois caras conversando com o médico da cidade e um cara muito estranho segurando uma arma enorme! Fiquei nervosa, cheguei mais perto para ver o que estavam falando, estavam discutindo sobre uma palavra “fami…” alguma coisa…
– “Famigerado”?
– Isso aí. Onde a gente tava mesmo? Ah tá! Lembrei. O cara estranho estava perguntando o que era famigerado, mas como o médico tinha um linguajar muito sofisticado, ele estava se embolando todo para entender! Depois de muita confusão, conseguiu sacar o que era. Pelo visto famigerado é alguém importante que merece louvor e respeito.
– Quem dera que eu fosse famigerada!
– Ah, um dia você chega lá! No fim das contas, aquele cara foi embora muito agradecido! Muito estranho, né? Fiquei com medo! Aí, no Rio, não acontecem essas coisas!
– Ah, mas me conta mais sobre a viagem.
– Tô adorando…
Puh Puh Puh Puh…
– Droga, a ligação caiu!

Narrador Observador: Um surdo

Por: Julia e Vera

Hoje foi um dia um pouco… Diferente. Começou normalmente, com meu passeio pela vizinhança, como o médico recomendou, e resolvi passar pela casa dele (meus remédios haviam acabado).
Chegando lá, me deparei com quatro homens, três deles estavam montados em seus cavalos e um estava falando com o médico (que, aliás, parecia assustado com o homem, mas também, não era pra menos! ESPERA, AQUILO É UMA ARMA?! MAS… MAS O QUE O MEU MÉDICO FEZ?! AH MEU DEUS ELE QUER MATAR O MEU MÉDICO, E AGORA?!
Ah, meu deus… espera, eu preciso manter a calma. Como de costume, me sentei no banco ao lado da igreja e fiquei observando a cena de esguelha, mas não consegui entender muita coisa. O que vou fazer agora?
Comecei a tremer. A conversa fluiu normalmente. Em dado momento, quem pareceu confuso foi o homem que falava com o médico. Depois de alguns momentos de dúvida, o homem fez um gesto com uma das mãos indicando aos três homens que fossem embora. Ainda bem!!
Um tempo depois, o homem e o médico estavam tomando café, e, logo depois, o homem, com um sorriso estampado no rosto, se foi em seu cavalo.
Esse foi o meu dia. O dia de um surdo que ouve mais do que deveria.

Narrador Observador: Cadela Kimmy

Por: Laura

Bem, meu nome é Kimmy adoro chocolate, e coisas do tipo, o meu “esporte” favorito é espionagem, se você ainda não sacou, eu sou uma cadela.
Por um acaso estava andando, passeando por perto da casa do médico, não vou te contar… como já disse, sou uma espiã e não revelo minha,… tá, você já entendeu. Enfim, o médico estava em casa, o arraial estava todo tranquilo, foi quando parou o tropel, um cavaleiro rente, frente à porta do médico, exato e em bando, com mais três homens, para ele não poder fugir.
Ele ficou com muito medo queria pegar sua arma, mas achou que não fosse uma boa ideia, pois o cavaleiro estava com uma arma de fogo. Então o médico, que não sabia o que fazer, falou para ele entrar, mas o Damásio (chefão) disse que não era caso de doença, e que só queria uma opinião bem explicada. Para você entender melhor, Damásio era conhecido como o vilão da serra.
Damázio queria uma explicação sobre a palavra famigerado, só que ele não sabia pronunciar e fez várias tentativas, mas o médico estava com medo de ofendê-lo, se o consertasse. Voltando ao Damásio, descobri que ele morava num lugar onde as pessoas eram analfabetas, por isso quando o chamaram de famigerado, ele não sabia o que era, e também, como ele mesmo disse, não tinha “livro das palavras”.
Depois de pensar um pouco, o médico perguntou:
– fa-mi-ge-ra-do?
Damásio repetiu a palavra com raiva, várias vezes e ficou vermelho igual a um pimentão. Então o médico começou a explicar o que era, que era uma coisa boa, importante, que merece louvor, respeito,….
Depois o médico disse que queria numa hora daquelas ser famigerado, bem famigerado, o mais que pudesse!
Ahhhh, se vocês querem saber o que aconteceu com aqueles três que o acompanhavam, podem ficar tranquilos, Damásio os dispensou. E, depois, quando o médico perguntou se ele queria água, aceitou e disse:
– A gente tem cada dúvida besta!
Agradeceu e foi embora.
Na verdade, essa foi minha primeira missão, foi muuuuuito divertido, adorei, espero poder ter muitas e muitas outras!!

Narrador Observador: Uma gata

Por: Carol

Bom, meu nome é Mila, e eu sou uma gata. Sou muito tímida e adoro ficar espionando pela minha janela.
Certo dia, estava passeando pela minha rua e me deparei com uma cena: o médico da cidade estava escrevendo em sua máquina, silenciosamente, como costumava fazer, quando começou a ouvir um barulho de cavalos. Ele foi olhar para a janela para ver quem era, quando viu um sertanejo e outros três rapazes que provavelmente eram seus capachos. O sertanejo desceu de seu cavalo carregado com suas roupas pesadas e suas armas no bolso. O médico ficou preocupado com a cara de bravo que ele tinha. O homem começou a fazer perguntas e mais perguntas sobre o que era “Famigerado”, passaram tempos e tempos discutindo isso e o sertanejo começou a explicar também a sua origem, dizendo que veio do interior.
Quando eles acabaram de conversar, o médico tomou coragem e convidou o sertanejo para tomar um copo d’água. Ele aceitou, estava morrendo de sede. Logo após os dois se despediram com um aperto de mão e o homem saiu galopando em seu cavalo.
Eu admito que fiquei bastante assustada com a situação, quando o jagunço apareceu acho que tive mais medo do que do cachorro que mora na casa ao lado da minha e vive latindo. Mas, no final, acabei percebendo que ele não era quem eu achava que era, tão mal e assustador.

Narrador Observador: O cavalo

Por: Francisco e Vitor

Eu, meu dono e seus 2 amigos estávamos sendo levados por um homem que, aparentemente, já matou muitos. Acho que ele está nos levando para a casa de alguém que mora aqui por perto. Parece que ele não entendeu a palavra famigerado, o que qualquer ser vivo com um cérebro entenderia, mas acho que ele não é esperto como eu.
Finalmente chegamos a casa de alguém, acho que era um médico. Isso porque tinha uma enorme casa, se vestia com elegância e classe e tinha um diploma na parede, que aparentava ter sido feita por uma universidade de medicina.
O médico e o homem que nos guiava tiveram uma discussão, deveras breve, sobre a palavra famigerado. (Que vem do latim famigérius glutônis, que vem do grêgo famigera famigu) Bom, tudo isso significa ser conhecido ou ter má fama. Após alguns instantes, meu dono me deu ordens para seguir meu caminho original e voltar para a estrada. Realmente não entendi direito a causa da discussão e muito menos o que eu, meu dono e seus amigos tínhamos a ver com isso. Mas uma coisa posso afirmar, com certeza: como esses humanos são burros!

Narrador Observador: Cozinheira, baiana, da casa da frente, apaixonada pelo doutor.

Por: Joana e Helena Tonini

Ai meu padim padicisso, aqueles oios são di arripiá mais du qui pimenta forte em acarajé baiano! Aquela boca quando fala o meu nome, faz inté eu isquecê o pecado que tenho cometido, aquele sorriso que aparece quando passo por lá, inté me lembra meu marido! Coitado, lá no norte do nordeste e nem imagina que eu tô sassaricando com outros. Bom, quem dera. Com essa muié num dá nem pra cinco minutos de conversa.
– Baiana, vai até a horta pegar hortelã para fazer um chá.
– Sim senhora, já tô indo. – Eta ama inquieta! Adora piei! Jesus! Falando nisso, vou aproveitar pra passá na lá na casa du dotô.
Nessa horta num tem hurtulã! Vou pegá essa daqui e vê se resolve.
Ai, meu padim padicisso, que barulho é esse? Famigerado? O que é isso meu padim? Escutai minha previ? Será bandido? Tá vindo da casa do meu cuscuzinho! Se acontecer algo com ele eu caio morta.
Ai patim padicisso dos males do mau, será mesmo ele? Num podi ser! Será que é Damázio? Aquele monstro da serra? Ele parece uma fera, cheio de armas e balas ao alcance. Ai padim, dai força ao meu docinho de caju.
– Pois… e o que é que é, em fala de pobre, linguagem de dia-de-semana?
– Famigerado? Bem, é importante, que merece louvor, respeito.
Sempre fiquei admirada com o conhecimento du meu dotô.
– Baiana, o que você esta fazendo aí? E meu chá, cadê? Larga de ser enxerida e vai fazer o seu trabalho.
Eta ama chata, por isso num tem marido. Mais mandona que velhinha, mais pra lá du qui pra cá. Ai padim, dai força, dai força.

Narrador Observador: O autor: Guimarães Rosa

Por: José, Bento e Gabriel L.

Estava em minha embelezada casa, tentando ter alguma ideia para criar um conto. Fui pegar um ar, quando ouvi algum barulho em frente à casa de meu vizinho. Fiquei curioso e fui averiguar:
– Vim preguntar a vosmicê quar é o significado da palavra … família gerado, framigerado, qual é mesmo a palavra? – Pergunta Damázio.
Fiquei assustado com a situação. O sujeito todo armado e de tamanha ignorância.
– Seria famigerado? – responde o doutor
– Isso mesmo, framigerado, o que é isso?
– Seria alguém… alguém notável, estupendo.
– Não entendi nada que vosmicê falô, explique em linguagem de pobre, de dia de semana.
No meio da conversa , tive a marafeita ideia de criação.
É alguém admirável, famoso, importante. Foi dessa cena que criei o conto famigerado.

Narrador Observador: A cuca

Por: Antonio Nunes

Um dia lindo no sítio do Pica-Pau amarelo, a Dona Benta estava contando uma história do Guimarães Rosa. Quando ela terminou a história, Emília teve a grande ideia de visitar uma das histórias dele. Quando soube, fiquei logo torcendo maleficamente para que entrassem numa história daquelas, cheia de mal entendidos.
Bom, todos começaram a se preparar para a fantástica aventura que teriam e logo pegaram o pó de pirlimpimpim. Emília, com a sua amiga Narizinho e sua canastrinha na mão; o Pedrinho com seu estilingue e umas pedras que achou, e Visconde levando uma bolsa cheia de livros de um tal Guimarães Rosa.
Eles jogaram o pó pirlimpimpim e foram rapidamente para uma história. Ao longo do caminho eles viram as letras: F-A-M-I-G-E-R-A-D-O. Primeiramente não entenderam muito bem o que significava. Fiquei foi feliz com o que via em meu caldeirão… adorava aquele jagunço…
Eles chegaram numa cidadezinha, tinha poucas casas, mas tinha uma igrejinha bem simpática, segundo o Visconde, porque euzinha saio logo correndo, só de pensar em Deus, em Jesus, essas coisas do bem. De repente, eles escutam uns galopes vindo a todo vapor. Com medo, se escondem numa moita que tinha por lá. Os cavalos param em frente a eles. Viram: eram 3 cavalos sendo que um era cabra macho, osso duro de roer! Os quatro ficaram muito assustados e escutaram:
– Famigerado, famigerado, famigerado, famigerado! – várias vezes.
A Emília ficou super empolgada com vontade de dar um pequenino susto, mas os três começaram a segurar a boneca com toda força! Quase não deu para prestar atenção nos bandidos. O Visconde estava super atento às explicações que o médico dava para o Damásio, meu bonitão. Dizia explicado o significado da palavra famigerado, mas os três continuavam segurando a boneca. Ao final de tudo, Emília, Narizinho e Pedrinho acabaram não entendendo o que era famigerado… no caminho de volta, Emília achou qualquer coisa no chão. Eu fiquei torcendo para que fosse uma bombinha explosiva, algo para dar mais emoção, mas nada, que pena, era apenas uma bala de revólver caída, que ela logo colocou em sua canastra. Voltaram para o sítio, preparados para uma nova aventura, e eu para atrapalhar um bocadinho…

Narrador Observador: Um escritor

Por: Dora

Após três gripes entediastes, já havia perdido a esperança.
– E aí, Sr. Joaquim? Alguma consulta foi interessante o suficiente?
– Tudo muito usual, meu caro Doutor.
– Vejo que meu consultório não é grande fonte de inspiração para um escritor, afinal…
Nesse momento, a fala do Doutor foi cortada pelo silêncio do próprio, que olhava (Enquanto segurava seu cafezinho) para o lado de fora da janela.
– Se esconda, Joaquim.
Me joguei contra a parede próxima à janela. Nada como a adrenalina de uma inspiração inesperada.
O Doutor convidou minha salvação para desmontar e entrar. Com certeza estavam montados em cavalos! Genial! O que quer que fosse, pelo visto recusou.
“Eu vi perguntar a vosmecê uma opinião sua explicada…”
Infelizmente, a face do sujeito de voz grossa é desconhecida para mim, o escritor escondido junto à parede. Isso o tornará um homem mascarado em minha história. O jagunço mandou algo/alguém ficar por ali mesmo. Se eram homens ou animais, não sei dizer, mas em minha história serão duas mulheres. Amantes ou prisioneiras? Ambos!
O homem afirmou que o Doutor não o conhecia, e que não perguntara a mais ninguém o que estava prestes a perguntar. O Doutor (que pousara seu cafezinho, pois a mão tremia demasiadamente) pediu para o cabra prosseguir.
“– Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é: fasmigerado… faz-megerado… falmisgerado… familhas-gerado…?”
Absolutamente! Um enigma que o príncipe terá que desvendar. A voz do mascarado abusava de um tom ameaçador. O Dr não respondeu de imediato.
“– …Vosmecê me fale, no pau da peroba, no aperfeiçoado: O que é que é, o que já lhe perguntei?”
O Doutor/ Príncipe presunçoso o corrigiu:
– “Famigerado?”
– “Sim, senhor…” – Repetiu várias vezes o termo.
O significado em si não era lá essas coisas. Mas após ser explicado “Em língua de pobre”, deixou o Mascarado bem feliz.
Quer saber o resto da história? Quinta feira nas livrarias!

Narrador Observador: A amante do Doutor

Por: Letícia, Maria Eduarda e João Pedro

Uma grande confusão.
Foi o que ouvi, eu saindo do banho, ainda de toalha envolta ao corpo, fui tentar descobrir a razão da gritaria que vinha da janela.
Parei no meio. Por duas razões. A primeira era que estava seminua e, depois, porque era amante, então não podiam saber que estava ali, na casa de Dr.
Ao me aproximar, ouvi uma voz desconhecida aos berros, parecendo muitíssimo irritada.
Em um timbre muito solene, pronunciava em alto e bom tom: – Famigerado! Famigerado!
Mas que palavra era essa que em minha cabeça, não fazia sentido? Mesmo sendo sempre uma menina pobre, sem estudos, a língua portuguesa sempre me intrigou, então tentava aprendê-la da melhor forma e, depois de conhecer Dr., pude aprender muito mais. Todavia, essa palavra era completamente desconhecida! Não conseguia assimilá-la a nenhuma outra palavra que sabia, mas pela fúria do homem, parecia-me xingamento. Creio que a vontade do jagunço, que por sinal estava carregado de armas e com três capangas, era a mesma que a minha, saber o que era “famigerado”.
– Vosmecê declare. Estes aí não são de nada não. São da Serra. Só vieram comigo para testemunho…
Disse o jagunço.
“Vamos logo! Diga! O que é?” Pensava eu, o Dr. Parecia apreensivo em falar, acho que coisa boa não era.
– Famigerado – falou Dr. – é inóxio, é celebre, notório, notável…
“O que? Por favor, explique melhor para a pobre mulher sem estudos!” Eu quase gritei, entretanto achei inapropriado, porém o homem parecia ter pensado o mesmo e pediu que lhe explicasse o significado em “linguagem de dia de semana”, Dr. então falou:
– Famigerado? Bem. É importante, o que merece louvor, respeito…
O jagunço duvidou, o fez jurar “para paz das mães, com a mão na Escritura”. O Dr. jurou, e ainda disse o quanto queria ser famigerado em uma hora dessas!
Depois disso o jagunço relaxou, libertou os três homens, percebi que eram reféns, não capangas, aceitou um copo d’água, mas eu, a esse ponto, já tinha saído, para me vestir, pois vi que, graças a deus, o fim da história foi bom!

Narrador Observador: Um estrangeiro

Por: Alexandre

Eu sou um estrangeiro, vim andando por uma longa viagem para conhecer outros lugares e conhecer outras culturas que não conheço muito bem, sou um estrangeiro dos EUA.
Me deparo com uma conversa entre um doutor e um jagunço, escuto.
– Vosmecê, agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é famigerado… fazmigerado…familhasgerado…fezmegerado…?
Quando me deparo com isso, faço o favor de dizer logo o que é famigerado.
– Vosmecê, que não me conhece, famigerado é um célebre, notório, importante, que merece louvor, respeito.
E o jagunço me diz:
– Ah bão!
Ele me agradece pela ajuda e vai embora. O doutor também agradeceu pela ajuda, e, então, fui embora também, em busca de novidades e conhecimento. Acho que ficaram impressionados, fui muito esperto.

Narrador Observador: Menino que soltava pipa

Por: Arthur de Lima Neves

Eu estava soltando pipa na rua até que ela caiu na casa de um doutor. Subi no telhado para pegar a pipa e vi um homem armado até os dentes com três capangas, se aproximando. Assustado, fiquei quieto e me abaixei. O homem falava palavras que eu nem entendia, depois perguntou o significado da palavra famigerado e o doutor explicou exatamente do jeito como a minha professora havia ensinado ontem na escola. Mas, antes da explicação, o homem ficou gritando e repetindo a palavra. Quando, finalmente veio a explicação, o homem se acalmou, bebeu um copo de água e foi embora. Eu peguei minha pipa e fui embora pensando em como o doutor conseguiu ficar tão calmo na presença daquele homem armado.

Narrador Observador: Trabalhador, pobre, da igreja local

Por: Maurício

Eu tava lá difrente pro sino da igreja, o padre Raimundino tinha me mandado polí o sino. Finarmente terminei. Morrendo di fomi decidi robá cumida da carsa da dotô. Aprovertando que ele tava escrevendo arguma coisa, passei como uma sombra pela porta dele. Quando eu já estava quarse lá, arguém começô a chamá ele, me escondi o mais rápido que eu podia em cima do telhado. O sujeito que tava charmando o dotô era o jagunço mais conhecido daquelas pontas, o seu nome era Damásio, alguns diziam que só na pronúncia de seu nome dava má sorte.
A primeira coisa que me veio à cabeça foi o que aquele sujeito tava fazendo ali. Logo me veio à cabeça que ele tinha vindo para empacotar o doutor, felizmente eu tava errado. Ele vinha para saber o significado de uma palavra, ele tentou repití várias vezes, mas ele não conseguiu falá a palavra. Era familgerado, famigerado disse o doutor, ele então começou a repití essa mesma palavra várias vezes, cada vez com mais raiva e seu rosto ia ficando vremelho a cada vez que ele pronunciava essa tá palavra. Eu, ignorante, não sabia seu significado, o jagunço logo após de um tempo repitindo essa palavra disse com raiva: AGORA VOSMICÊ FAÇA-ME O FAVOR DE ME DIZER O SIGNIFICADO DESSA PALAVRA. O dotô, nervoso, disse: famigerado, bem, é uma pessoa que merece louvô, respeito. O jagunço já mais carmo disse: vorcê jura, com as mão na escritura, pelo bem das mãe? O dotô disse: “sim”, eu juro.
Bom pelo o que consegui ouvi, o dotô chamô ele pra bebê água e ele aceitou, depois ele agradeceu o dotô e foi embora, deixando só areia no chão.

Narrador Observador: Um velho surdo

Por: Julia Hue e Alice Machado

Acordo cedo. Como todos os dias, preparo meu café com leite e, sozinho, sento-me à mesa. Após o café, vou buscar água, pego um balde embaixo da pia e me encaminho para fonte. Ao sair, me deparo com quatro homens carrancudos montados em seus cavalos. Sou um velho muito curioso, então resolvi segui-los para descobrir o que eles faziam aqui nessa vila tão afortunada. Eles se direcionaram à casa do doutor, me escondo atrás de uma árvore e observo ele sair pela porta, o homem mais alto se encaminha em sua direção e começa a falar. Não posso ouvi-lo, pois sou surdo, mas vejo pelos seus movimentos que ele não está zangado, mas sim confuso. O doutor segura as palmas das mãos em frente ao corpo de modo desajeitado, percebo que ele está fazendo esforço para manter a calma. Agora o grande homem está gritando e vejo que seus lábios repetem o mesmo movimento várias vezes. Vejo que sua respiração está ofegante por trás de seus movimentos, mas ao longo de alguns segundos ela começa a diminuir e ele se acalma. Vejo que o doutor também. O doutor faz vários movimentos com a mão como se estivesse tentando explicar alguma coisa, mas o homem continua com uma expressão confusa e fala algo, então o Dr., pelo que me parece, tenta explicar de novo. O homem faz uma cara satisfeita, faz um movimento com a mão e dispensa os outros homens, conversa um pouco mais com o Dr. e vai embora.

Narrador Observador: Um homem que mora em Curitiba e que foi para o nordeste visitar a tia

Por: Helena Lessa

O dia estava muito quente no sertão nordestino. Só estava cavalgando há meia hora, porém parecia uma eternidade. Eu estava suando, com muito calor; de certa forma com saudade do clima frio de Curitiba, a cidade onde moro.
Faltava ainda um quilômetro para chegar à casa de minha tia e minha garganta estava seca. Avistei ao longe uma casinha. Aquela poderia ser minha salvação. Resolvi ir até lá e pedir um copo d’água. Porém, quando cheguei, deparei-me com uma cena de arrepiar os cabelos: atrás de algumas árvores estavam quatro sujeitos, um deles armado dos pés a cabeça. Medroso como sou, minha vontade era de fugir daquele lugar, mas sabia que qualquer barulho que fizesse seria minha morte certa; portanto fiquei imóvel, atrás das árvores, ouvindo a conversa do dono da casa que, depois descobri, era um doutor famoso na região, com aqueles estranhos sujeitos.
– Eu vim preguntar a vosmecê uma opinião sua explicada. – disse o jagunço – vosmecê é que não me conhece. Damázio, dos Siqueiras… Estou vindo da Serra…
Então percebi porque ele não me era estranho… Havia o visto na primeira página do jornal de ontem, junto da manchete com os seguintes dizeres: “Damázio ataca novamente, deixando 4 mortos e 5 feridos”. O pavor tomou conta de mim; não sabia o que fazer; fiquei lá, parado, continuei a ouvir a conversa:
– Saiba vosmecê que, na Serra, por ultimamente, se compareceu um moço do Governo, rapaz meio estrondoso… Saiba que estou com ele à revelia… Cá eu não quero questão com o Governo, não estou com saúde nem idade… O rapaz, muitos acham que ele é de seu tanto esmiolado – O sujeito parou por um instante e continuou – Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é: famisgerado…faz-megerado… falmisgerado… familhas-gerado…? Saiba vosmecê que ind’doje da Serra, que vim, sem parar, essas seis léguas, expresso direto para mor de lhe pregunta, pelo claro… Lá, e por estes meios de caminho, tem nenhum ninguém ciente, nem têm legítimo – o livro que aprende as palavras… é gente pra informação torta, por se fingirem de menos ignorâncias… Só se o padre, no São Ão, capaz, mas com padres não me dou: eles logo engambelam… A bem. Agora, se me faz mercê me fale, no pau da peroba, no aperfeiçoado: o que é que é… O que eu já lhe perguntei?
Ouve um minuto de silêncio, até que o doutor finalmente falou:
– Famigerado?
– Sim, senhor… – Disse Damázio já com seu rosto vermelho de raiva.
Famigerado… Que palavra era aquela? Famigerado… Acho que nunca havia escutado em lugar algum. Cheguei mais perto, fiquei atento, queria saber o significado daquela maldita palavra. Será que nem o doutor sabia a resposta? Aos meus ouvidos parecia xingamento.
O doutor aparentava temeroso com os três capangas, Damázio percebeu isso e foi logo dizendo:
– Vosmecê declare. Estes aí são de nada não. São da Serra. Só vieram comigo pra testemunho.
O homem pareceu mais aliviado, e eu também. Com aquilo tinha que me preocupar com menos três pessoas.
– Famigerado é inóxio, é “célebre”, “notório”, “notável”…
Continuava sem saber o que famigerado significava, porém não era o único, Damázio também estava com cara de dúvida.
– Vosmecê mal não veja em minha grossaria no não entender. Mais me diga: é desaforado? É caçoável? É de arrenegar? Farsânia? Nome de ofensa?
– Vilta nenhuma, nenhum doesto. São expressões neutras, de outros usos.
– Pois… e o que é que é, em fala de pobre, linguagem de em dia de semana?
– Famigerado? Bem. É “importante”, que merece louvor, respeito.
Eis a resposta, o significado da tal palavra… Importante…
– Vosmecê agarante, pra a paz das mães, mão na Escritura?
– Olhe: eu, como o senhor me vê, com vantagens, hum, o que eu queria uma hora destas era ser famigerado – bem famigerado, o mais que pudesse!
– Ah bem! – Damázio soltou um longo suspiro e disse, se dirigindo aos três homens que o acompanharam – Vocês podem ir, compadres. Vocês escutaram bem a boa descrição…
Os três sujeitos saíram cavalgando, aliviados também por nada ter acontecido.
– Sei lá, às vezes o melhor mesmo, pra esse moço do Governo era ir-se embora, sei não… A gente tem cada cisma boba de duvida boba, dessas desconfianças… Só para azedar a mandioca…
Já estava mais que na hora de ir, minha tia estava à minha espera. Acabou tudo bem, e eu até esqueci aquela sede que estava, havia me refrescado à sombra daquela árvore. Afinal de contas, Damázio não era tão ruim assim.

Narrador Observador: Um menino

Por: Clara e Gabriel B.

Eu estava jogando bola com os amigos quando, sem querer, isolei a bola. Discuti com os meus amigos sobre quem iria pegá-la. Fizemos aposta. Perdi. Procurei durante 2h. Achei a bola no jardim do Doutor, um dos meus médicos favoritos. Na verdade, ele era o único médico que eu tinha. De repente, eu encontro quatro homens parados com seus cavalos na frente da casa do Doutor. Tinha três homens sentados em seus cavalos, com chapéus grandes e roupas de pobre e o quarto homem com um chapéu grande, com várias balas guardadas, umas três armas e foi o único que saiu de seu cavalo para conversar com o bom Doutor. Ele estava nervoso para saber uma certa palavra. Como era mesmo?… Ah! Era Famigerado. O homem nervoso parecia um grande bandido. Falou que ele veio de muito longe para saber o que era Famigerado. O motivo? Um homem do governo o chamou de Famigerado.
O bom Doutor pensava em como dar a melhor resposta. Depois de pensar um pouco, o doutor respondeu:
– Famigerado é “inóxio”, é “celebre”, “notável”.
O famoso ladrão continuou a não entender e perguntou.
– Exprique em linguagem de dia de semana.
O Doutor respondeu, pacientemente:
– Famigerado é “importante”, que merece respeito.
O homem agradeceu e tomou um copo d’água. Os quatro partiram.
Voltei para contar a história aos meus amigos. Quando acabei de contar a história, eles me perguntaram:
– Mas onde está a bola?
E, assim, voltei com raiva para pegar a bola.

Narrador Observador: O Ms. Morte

Por: João Daniel e Luiza

Sentava-me ao lado de uma mulher que esperava por sua vez de falar com o doutor, conferi novamente que sua ampulheta continha apenas três grãos. Suspirei pesarosamente ao lembrar-me do fato de que já se fazia 3 horas que eu esperava seu tempo esgotar. Procurei na minha manta as ampulhetas das pessoas que morreriam naquele dia e constatei de que em menos de uma hora eu teria que abandonar o assento duro do escritório e ir atrás do padre da cidade vizinha.
Esperar uma mulher com crises de tosse ter sua consulta no escritório era mais entediante do que eu havia imaginado, e logo me encontrei querendo tornar as coisas mais divertidas permitindo que a mulher me visse.
– Isso provavelmente aceleraria o rumo das coisas… – murmurei.
Conferi novamente a ampulheta do padre e levantei-me: Havia apenas mais um grão.
Ao chegar à estrada que me levaria para a igreja, onde o padre morreria, me deparei com um viajante armado. Logo após desse, passaram outros três, os quais se encontravam amedrontados e se esforçavam para alcançá-lo.
Continuei andando e logo vi o padre tropeçar no meio da rua. Antes mesmo que pudesse ter alguma reação, a cabeça do homem foi esmagada por um dos cavalos do trio. O condutor do cavalo soltou uma exclamação de desespero e sua comoção fez os outros pararem. A alma do padre olhava assustada para seu corpo caído no chão, em seguida para mim, e novamente para o corpo, depois de um momento, uma súbita rajada de compreensão pareceu invadir sua mente. Ele, então, olhou para cima, como se esperasse começar a voar, e ir em direção ao céu. Depois de alguns segundos, tentou falar com algum dos viajantes, mas os três já haviam partido. Então, como se conformasse com a situação, ou por não ter mais ninguém ali. Veio falar comigo:
– Eu morri? Sim, Sim, isso é evidente, mas quem é você?- Ele perguntou.
– Eu sou a morte – respondi, já era a décima quinta vez que eu tinha que ter o mesmo diálogo no mesmo dia, torci para que ele não fosse tão insistente e curioso como o escritor que eu havia recolhido naquela manhã.
– Hmm, Mas o que o senhor faz aqui? – Ele falou pensativo – Devia ser um anjo, evidentemente tem algo errado… Eu vou pro Paraíso, não vou?
Suspirei, aquilo seria longo.
– Como disse antes, eu sou a morte. Eu não posso dizer para onde você vai, o meu trabalho é simplesmente recolher a sua alma e as suas memórias e indicar a você o que deve fazer em seguida.
– Siga essa rua – eu apontei a estrada por onde eu havia vindo –, em algum momento você vai encontrar uma luz ofuscante. Entre nela, não importa o que aconteça. Lembre-se: nessa forma apenas pessoas com mediunidade e gatos podem te ver.
Eu o observei andar, até que percebi que talvez ele não tenha aceitado completamente a ideia de que aquela luz o levaria para o que ele chamava de “Paraíso” e de que eu era um “enviado de Deus”. Suspirei e observei a ampulheta da minha última tarefa do dia. Não havia mudado nada, ainda lhe restavam três grãos. Eu nunca havia visto uma demora tão grande para um grão cair.
Se eu tinha tanto tempo assim, conseguiria pegar um caminho diferente sem me atrasar para o horário de morte da mulher, talvez eu encontrasse alguma coisa para animar a Ysabell…
Enquanto caminhava avistei novamente o homem armado seguido pelo seu trio, no momento os três estavam amontoados em um canto, enquanto o homem armado falava com um homem mais velho, com aparência mais elegante, o qual parecia nervoso com a presença dos três. A primeira coisa que pensei foi em dívidas, afinal os humanos sempre se metem em confusão por dinheiro. Aliás, na maior parte das vezes eles são mortos por dinheiro. Rapidamente o meu cérebro fez a conexão: homens armados com pressa demais para perceber um homem que havia tropeçado na rua, falando com um homem nervoso. A aparência elegante não explicava nada, jogos de azar, que são tão famosos entre os humanos, são o suficiente para os homens mais ricos caírem na miséria em uma noite. Procurei em meu manto a ampulheta do homem elegante e me surpreendi ao não encontrá-la. Mortimer, desde que havia contratado aquele garoto ele só havia me causado problemas…
Talvez eu devesse ficar para ver o se o homem morreria ou não, desde que eles demorassem menos do que os grãos da senhora fazendo a consulta eu poderia fazê-lo.
– Eu vim perguntar a vosmecê uma opinião sua explicada. Vosmecê é que não me conhece. Damázio, dos Siqueira… Estou vindo da Serra…
O nome me soa familiar, porém como o homem está de costas para mim não posso ver o seu rosto. Para reconhecê-lo pelo nome deve ser alguém de fato muito famoso, porém a qualidade de suas vestimentas indicam que não é alguém rico.
– Saiba vosmecê que, na Serra, por ultimamente se compareceu um moço do Governo, rapaz meio estrondoso… Saiba que estou com ele à revelia… Cá eu não quero questão com o Governo, não estou em saúde nem idade… O rapaz, muitos acham que ele é um tanto desmiolado.
Lentamente a conversa fugia de um rumo preocupante em relação à vida do rapaz elegante. Conferi novamente a ampulheta da senhora e constatei que pelo menos agora tinham dois grãos. Finalmente algo tinha acontecido com aquela ampulheta.
– Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é: fasmisgerado… faz-megerado… falmisgeraldo… famílias-gerado…?
Percebi que “Damázio” não faria mal ao outro homem. Provavelmente teria a sua dúvida retirada rapidamente, graças ao medo que o outro nutria por ele e iria embora sem tirar mais satisfações. Voltei a andar na rua, se o homem não fosse morrer eu não tinha nada a ver com aquilo, era melhor me dirigir para a cidade da velha mulher e descobrir onde ela se encontrava ao invés de assistir aquela cena e não ter tempo o suficiente para encontrá-la com calma.

NARRADOR OBSERVADOR: A vizinha do médico

Por: Alice T e Stephanie 

Estava eu, nessa desacerbada manhã, nesse sertão cretino, regando meus esdrúxulos cactos, que não deram flor o ano todo, quando, de repente, passaram quatro cavalos correndo. Só pararam de correr quando chegaram em frente a casa do meu vizinho.
O vi, o matador do sertão, nunca, em minha vida toda, vivendo na estrumbeira que é esse sertão, tinha visto um homem tão parrudo e respeitável, montado em seu alazarte, não, alazorde… ALAZÃO!
Quando o doutor saiu de casa logo ficou com uma cara amedrontada. Não sabia ao certo quem eram aquel’zomi, peguei minha luneta, para pelo menos ver do que se tratava. Minha casa não era tão perto da casa do doutor por isso não consegui ver tudo o que estavam falando, sendo assim, me entreguei naquele matagal e fui mais pertinho. O assunto se tratava de familhagerado.
Como’lé que eu, euzinha muié perfeitosa, ia me apaixonar por um homem de família?! Imagina a mulher desse homi, deve ser um armário, não posso competir com isso! É muita areia sertaneja para a minha carrocinha!
Entretanto, logo descobri que se tratava da palavra famigerado. Senti um formigamento no mindinho do pé, será que era uma formiga ou era um sinal do começo de um grande amor? Logo vi que era uma formiga, e me distrai dando um ataque no meio do matagal. Quando parou de formigar voltei a prestar atenção na conversa daquel’zomi, mas para o meu azar, a conversa já havia terminado, vi os dois apertando as mãos. O matador do sertão estava muito agradecido e aquel’zomi tinha sumido, logo meu amor parrudão, o matador do sertão, foi embora em seu alazão.