A Construção do Leitor

Relato Coletivo Sobre a Conversa com o Escritor Michel Laub

No dia 11 de setembro de 2015, nós, da turma F9M, tivemos a honra de conversar com o autor do livro Diário da Queda, adotado no segundo trimestre. Numa roda de discussão sobre o romance, surgiu uma dúvida a respeito do quão autobiográfica era a obra. Por isso tivemos a ideia de entrevistar Michel Laub para descobrir como o livro foi construído e também os mistérios da carreira de escritor. Como Michel Laub mora atualmente em São Paulo, a solução foi fazer uma videoconferência.
Nos dividimos em vários grupos para pensar e elaborar o primeiro esboço das perguntas. Pesquisamos sobre a vida e a obra do autor e, em conjunto, finalizamos o trabalho. Fizemos a entrevista na nossa sala de aula, arrumamos nossas carteiras em meia-lua de forma que ele pudesse nos ver. Pouco antes de começar a conversa, ainda estávamos nervosos, pois era nossa primeira vez com uma experiência do tipo. Ao contrário da nossa expectativa, ele nos tratou com muita naturalidade. Também ficamos tensos com a sua possível reação às perguntas pessoais que fizemos. A conversa foi de muito prazer e aprendizado. Abaixo relatamos alguns dos temas que abordamos através de nossas perguntas.

A Obra na Vida e a Vida na Obra

No processo de criarmos perguntas para o Michel Laub, percebemos que quase todas eram sobre sua vida pessoal. Isso se tornou um problema, por isso resolvemos formular melhor o que iríamos falar, pois achamos que Michel não ficaria muito à vontade com esse tipo de abordagem. Depois de todo o debate e criação de novas perguntas mais focadas na escrita e na obra, restou apenas uma pergunta que todos nós ficamos com vontade de saber a resposta: a respeito do casamento.
No romance, o casamento aparece como uma relação muito pouco afetuosa. A opinião do personagem reflete seu modo de pensar a respeito do casamento? Ficamos com receio de que ele não respondesse, por isso colocamos esta pergunta no final. Porém, por incrível que parecesse, ele respondeu, ainda que de maneira misteriosa. Na hora, ele pareceu um pouco perturbado com a pergunta, mas ficamos felizes com o que pode falar.

A Escrita em Fragmentos e as Redes Sociais

Nós fizemos uma pergunta sobre a forma da escrita encontrada no livro, de onde tinha surgido a ideia da escrita em fragmentos. Esperávamos como resposta que o texto fosse assim escrito para ser semelhante a uma memória: curta e sem ordem cronológica. Também supúnhamos que tivesse se inspirado em algum autor. Porém ele nos surpreendeu com outra resposta: nos disse que sua escrita era baseada na forma utilizada nas redes sociais. Ficamos muito chocados.

Machismo em Discussão na Obra

Ao falarmos sobre o machismo que percebemos problematizado na obra, nos surpreendermos, pois a reação de Michel não foi a esperada. Achamos que havia intenção clara do autor de introduzir a discussão, porém ele disse não ter se dado conta disso. Neste ponto, disse ter sido fiel à história de sua família e que não lhe interessava contar a história das mulheres. Se fosse fazer isso, teria que dobrar o número de páginas do livro, o que não fazia parte de seu projeto. Por isso focou a narrativa na história dos homens da família.

Livros de Formação

Michel nos contou que, atualmente, eram muitos os seus autores e livros favoritos. Deu-nos alguns exemplos e afirmou que muitos desses autores foram um tipo de inspiração para sua escrita. Pudemos perceber que a maioria dos livros citados por ele era de autores brasileiros.
O gosto de leitura dos jovens vem mudando muito de uns anos para cá, pois muitos dos clássicos brasileiros são dispensados pelos adolescentes, para dar lugar a best sellers estrangeiros. Antigamente, não eram muitas as opções de livros, porém, passaram-se alguns anos e a oferta de leitura aumentou drasticamente.
Na época da adolescência, Michel não gostava de ler livros propostos pela escola, como por exemplo os de Machado de Assis. Ao longo dos anos, conforme ia envelhecendo, percebia a importância desses livros na sua formação. Ele nos recomendou dois autores que leu com bastante empolgação na adolescência: João Gilberto Noll e Rubem Fonseca.

Exercícios de Escrita

Escrita de Fragmentos de Memória pela Turma

Após realizarmos a leitura e a discussão do romance Diário da Queda, nossa professora de português, Heleine, propôs que escrevêssemos um texto. O trabalho estava relacionado com a estrutura do livro: deveríamos escrever nossas memórias em fragmentos, tal como fizera Michel Laub.
No começo foi meio difícil, pois como estamos acostumados a escrever textos em prosa mais longos, demoramos a desenvolver o texto da maneira proposta. Porém, esse não foi o único desafio que tivemos que enfrentar: revirar o passado também foi difícil! Descobrimos muitas coisas com esse exercício. A primeira delas é que não é possível falar toda a verdade quando se trata de uma lembrança. Outra é que ao escrever sobre o passado nos sentimos mais leves, pois nos libertamos de algo que nos prendia.
Alguns destes fragmentos podem ser lidos na “Ilha da memória”, não deixe de conferir!

Dica de Escritor

Ao final da entrevista, lemos para Michel Laub algumas memórias que escrevemos a partir de Diário da Queda. Ele gostou tanto que nos sugeriu um novo exercício: que cada um de nós narrasse a seu modo um mesmo acontecimento, vivenciado por todos. A graça do exercício era compartilhar as histórias e perceber as diferenças entre elas. Combinamos narrar a experiência do primeiro beijo através de uma história genérica: dois primos, ao cavarem uma piscina de areia na praia, são surpreendidos por uma onda e o primeiro beijo acontece. Leia alguns resultados:

João Luiz

Minha família estava a caminho de Parati, onde eu iria conhecer meus primos. Estava muito assustado pensando na opinião deles a respeito de mim. Quando cheguei na casa do meu tio, ele deu a ideia de caminharmos todos até a praia. Fiquei muito intrigado com a minha prima Maria, ela era muito bonita. Ao chegarmos na orla, ela e eu começamos a cavar um buraco na areia, quando uma onda gigantesca veio em nossa direção. Durante uma troca de olhares pensamos que nossa morte estava próxima, então tivemos a ideia de dar um rápido e mágico beijo. Para nossa surpresa, a onda não era tão grande assim, apenas inundou nosso buraco de areia.

Luiza Belford

Era uma tarde de domingo ensolarado. Um “programa de índio” ir à praia naquele dia extremamente quente, mas “o calor falou mais alto”. Então eu e minha prima resolvemos ir a Ipanema e nos instalarmos no Posto 9, em frente ao coqueiro mais alto, mais conhecido como Coqueirão.
Chegando lá, colocamos nossas coisas na areia e resolvemos ir para a beira da água fazer uma piscininha. Deu tudo certo, a água foi entrando cada vez mais rápido até que, de repente, uma onda maior do que desejávamos nos atingiu e fez com que eu e minha prima chegássemos mais perto uma da outra. A mão dela encostou na minha, sua respiração estava acelerada pelo minicaixote que nos arrebatou. Aproximei-me ainda mais de minha prima. Minha mão começou a tremer, mas, de repente, tudo ao redor parou e só senti lábios macios encostarem nos meus. Eu estava beijando-a. E olha que não foi ruim, na verdade, foi muito bom! Quando terminamos, olhei meio sem graça para minha prima, mas ela deu uma risada de lado e acabou descontraindo o clima estranho que estava no ar. Olhei em volta e alguns nos condenavam com expressões de preconceito e nojo. Revirei os olhos e segui minha vida.

Leonardo Skopinich

Nós estávamos na praia brincando, eu e minha prima. Construíamos castelos e cavávamos buracos na areia. O dia estava lindo, nem uma nuvem no céu, apenas gaivotas voando de um lado para o outro.
Minha tia nos deu a ideia de cavarmos uma piscina. Achamos que era uma boa ideia, então fomos cavar perto da água. Enquanto cavávamos, sem querer toquei em sua mão, então olhei para a minha prima e ela para mim. Senti uma conexão nos nossos olhares e vontade de beijá-la, porém não queria que a minha tia visse. Esperei até o momento certo, e assim que minha tia virou para comprar um biscoito Globo eu puxei minha prima pela mão. Ouvi o som de uma onda quebrando e a beijei.

Cartas ao Escritor

Além da escrita de fragmentos de memória e da leitura dramatizada de Diário da Queda, produzimos coletivamente algumas cartas endereçadas a Michel Laub, contando nossas impressões e interpretações do livro. Reproduzimos a seguir duas dessas cartas, escritas pela turma F9T:

Carta 1

Prezado Michel Laub,

lemos seu livro Diário de Queda e, dentro de nosso grupo, ocorreu uma oposição em relação à opinião da maioria. A maior parte do grupo estranhou a forma de sua escrita por causa da pontuação, que produz um ritmo que torna a leitura monótona, repetitiva, cansativa, irritante. Isto não despertou em nós nenhuma curiosidade e motivação para ler.
Por outro lado, um integrante do grupo achou a leitura interessante pelo modo como as repetições aconteciam e introduziam o que estava para acontecer. A história é envolvente, apesar de dedicar pouca atenção às mulheres daquela família, que também foram afetadas por Auschwitz.
Nossa professora, Heleine, passou três propostas de trabalho a partir do livro: um texto no qual escrevemos nossas memórias, como você; uma leitura dramatizada de alguns de seus fragmentos; e esta carta.
Esses trabalhos e as discussões propostas em sala de aula foram muito divertidas de fazer. Escrever o texto de memórias nos trouxe de volta lembranças muito antigas e pessoais, nos fez relembrar a época em que o passado era presente. A leitura dramatizada foi o momento em que pudemos expressar o que sentíamos através da arte da leitura.
Obrigada pelas possibilidades de trabalho que nos proporcionou.

Abraço,

Clarisse Fiche, José Miranda, Antônio Saad, Maria Eduarda Prado, Francisco Levy e João Miceli.

Carta 2

Michel Laub,

Nós – Matias, Fernando, Tomaz, Clara, Victor e João Pedro – lemos seu livro, Diário da Queda – depois de receber a indicação da professora Heleine. No começo, o livro era uma obrigação, por ser uma tarefa escolar. Mas depois, quando o livro desencadeou uma série de discussões, lê-lo ficou mais legal. A linguagem simples que você usa faz com que a leitura seja mais fluída e menos cansativa. Todas as pessoas do nosso grupo, em algum momento do livro, se identificaram com a narrativa, até porque alguns fragmentos são muito casuais e aconteceram nas vidas de várias pessoas. Cada integrante do grupo teve a sua opinião a respeito do livro, mas após algumas conversas, chegamos ao acordo de que o livro é bem legal e, como tudo na vida tem altos e baixos, o seu livro também tem.
Parabéns pelo trabalho!

Um abraço,

Matias, Fernando, Tomaz, Clara, Victor e João Pedro.