setembro de 2013

A Proposta

A vida é um fio,
a memória seu novelo
Enrolo – no novelo da memória –
o vivido e o sonhado
Se desenrolo o novelo da memória.
não sei se tudo foi real
ou não passou de fantasia.

Bartolomeu Campos de Queirós 

 

A ideia proposta aos estudantes foi a construção de um caderno para a produção de textos mais autorais, espaço para experimentarem a escrita em diferentes gêneros e estilos. Chamamos: “Memórias em Construção – um laboratório de escrita”. Alguns temas foram propostos pela professora, em geral giraram em torno de nossas conversas, outros textos foram livres. Assim, nasceram memórias afetivas de leitura e escrita, memórias de gentileza, memórias intertextuais, memórias musicais, memórias inventadas, memórias de objeto, memórias “DNA” – se passando por algum escritor etc. Para problematizar um pouco a questão da memória, trouxemos alguns textos literários, tais como: Memórias Inventadas, de Manoel de Barros, e Pequenas Memórias, de José Saramago.

Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória.”
José Saramago

 

9 3/4

Letícia Nery

Meu sonho de criança (e de agora) é me mudar para uma casa, com jardim, endereçada na famosa rua dos Alfeneiros, número 4.
Eu, quarto? Apenas um armarinho debaixo da escada. E, mesmo que no começo meu único amigo seja uma coruja, compensaria, se eu soubesse que, num futuro não tão remoto, viria a mim a tão esperada carta de Hogwarts. E, passando o tempo, pegar um expresso vermelho, tão lindo, que me leve a um lugar que, durante toda minha vida, era, e continua sendo, uma casa. Hogwarts.
Quando pequena meu vocabulário se limitava às palavras cotidianas, ler um texto com as famosas “palavras difíceis” não era exatamente uma opção, todavia sempre me
encantava a história dos bruxos que meus pais me contavam durante suas leituras.
Tempos depois, eu já maior, os filmes da saga foram lançados, e meu fascínio virou maior, meu encanto pela magia, e todo aquele mundo que a cercava, me envolvia cada vez mais, e eu me sentia parte daquilo, casa vez mais.
Já crescida, comecei a ler a série, e ao ler as primeiras palavras (“Capítulo um – o menino que sobreviveu”) veio toda aquela sensação que tinha quando meus
pais me falavam o que liam, só que agora era minha vez.
E saber que agora era eu que podia visualizar em minha mente aquela abundância de paisagens ainda mais detalhadas, a alegria era quase angustiante.
Para mim, começar a ler o livro foi fazer uma viagem – pegar o 9 3/4 e ir para um onde muitas pessoas, assim com eu, gostariam de chamar de lar, se é que já não
podem.

Identidades

Julia Hue

Há alguns anos atrás um menino fez um crocodilo engolir a minha mão, e desde então esse crocodilo me persegue, assim como eu persigo o menino. O pior é que todos acham que eu sou o vilão da historia. Bem, eu desconfio que o menino seja louco, ou tenha algum outro problema, pois ele nunca cresce, talvez tenha aquela doença da órfã. Ele fala com borboletas e diz que elas são fadas e acredita que eu sou um pirata, porém eu sou apenas um pescador. No verão passado, Peter – o nome dele – sequestrou uma menina chamada Wendy, coitada… Ficou desesperada, mas conseguiu fugir, e isso o deixou mais maluco. Ah, o meu companheiro de pesca, Smith, está me chamando, parece que o Peter está se drogando de novo, jogando purpurina por aí e gritando: “tenha pensamentos felizes” Nem quero saber quais são os pensamentos felizes desse garoto psicótico.

Alvorada

João Daniel

O passarinho do coração canta estrelas na noite de flores
Enquanto o leito do rio chia frutas no céu verde-abacate
E do sabor da fruta em nossas línguas nasceu um novo dia

Memória de uma memória

Dora Acioli

Tudo que sei é que a cama é branca demais. Não só a cama, tudo está branco demais, inclusive meus pensamentos.
Ouço um grito, dois, três, eles não param. Vêm de fora. Não posso ficar parado enquanto ouço os agudos pedidos de socorro.
Por que há tubos? Me livro deles, sinto que agora há menos um obstáculo para alcançar meu objetivo. Qual seria?
Meus pés tocam o chão frio, mas ainda não me sinto vivo. Me aproximo da janela completamente fechada. Ela é uma daquelas que abre para frente. Como ela, me inclino para frente. Ninguém está gritando, mas o barulho fica cada vez pior.
Um carro passa, o farol está alto, deve ser noite, porém, ele está alto demais, a luz caminha por meus olhos e mente.
Lentamente, me aproximo daquela cama fantasma e me deito. Respiração ofegante. Agora aquele quarto branco faz sentido, juntamente com os gritos. Tudo faz sentido, menos o fim.

Meu Diário

Antonio Bento

18/2/10
Querido diário, tenho 6 anos e estou no primeiro ano, hoje foi o primeiro dia de aula e eu adorei!
Entrou uma menina nova na escola e eu não sei o que sinto por ela, nunca senti isso antes…
16/3/10
Diário, até hoje não me entendo, ela é legal, não falo muito com meninas, mas com ela é diferente, cada vez que falo com ela, mais quero falar! Você sabe que sentimento é esse?
19/5/10
Diário, me ajuda? Não falo com ela há mais de 2 meses. Mas também não tenho o que falar, não gosto das mesmas coisas que as meninas, eu gosto de futebol, esportes, e essas chatas só gostam de Barbie, são todas chatas, menos ela.
21/6/10
Diário, hoje é meu aniversario! Ela me deu os parabéns na escola, foi muito legal. Todo mundo me deu os parabéns, mas eu ignorei todas as meninas, claro, menos ela. E você? Não vai me dar os parabéns?
18/2/11
Diário, estou triste, hoje foi o primeiro dia de aula e eu não a vi, será que ela saiu da escola? O que eu faço se ela realmente tiver mudado?
20/4/11
Achei! Ela passou para a outra turma do meu ano, será que ainda se lembra de mim? Acho que estou começando a entender o que sinto. Minha mãe sempre fala para mim “eu te amo”, será que é isso que sinto por ela? Será que o que sinto por ela é amor?
21/6/11
Diário, hoje é meu aniversário, mas ela não me deu os parabéns… Ela estava doente e não foi para a escola. Bem, 8 anos aí vou eu.
1/7/11
Hoje ela voltou para a escola, e me deu os parabéns atrasado, eu adorei que ela se lembrou por tanto tempo. Ela se lembrava de mim! Perguntei o que tinha acontecido com ela, e ela disse uma coisa estranha, sei lá, dente, denque, ah é dengue!
18/7/11
Diário, acho que estou com dengue, assim como ela, se bobear ela que me passou.
1/8/11
Diário, descobri o que sinto por ela, eu perguntei para a mamãe o que ela sente pelo papai, e ela disse “ah filho, sinto muitas coisas pelo seu pai, ódio, raiva, ciúmes e amor” O que sinto por ela é amor!
21/6/14
Diário, desculpa, me esqueci de você por um tempo, muitas coisas aconteceram comigo, criei um Facebook, ganhei um celular, e muitas outras coisas. Hoje é meu aniversario, vai ter uma festa mais tarde! Ah é, não te contei, no começo do ano eu consegui ficar com ela, e agora estamos namorando! Sabe, acabei de me tocar, nunca te disse o nome dela… É Ana.
1/7/14
Diário, essa é sua ultima folha… Adorei ter você, ficará em mim para sempre. Bem, são as duas últimas linhas. Acho que é isso… Eu te amo.

Gentileza, o que será?

Luiza Miranda

Uma memória afetiva em relação à gentileza. Quantas pessoas podem dizer que tem isso? E, dentro dessas, de quantas de pode dizer, com certeza, que foi realmente gentileza, sem outras intenções?
Gentileza é um assunto de frases prontas, que te ajudam a se manter respeitável diante dos outros, ou ainda que te ajudam a montar uma imagem, mas quantas pessoas realmente fazem uma gentileza? E quando elas fazem, será que, na verdade, elas estão fazendo isso porque estão com um amigo e, portanto, não poderiam deixar que a sua imagem de pessoa gentil se desfizesse?
Atos para o bem de si próprio podem ser interpretados como gentilezas, dependendo de como você os faz, assim como atos de gentileza podem não ser interpretados como tais.
Mas vamos ignorar completamente a linha que separa gentileza de “atos gentis” feitos em beneficio próprio. Por agora, vamos pensar que tudo é a mesma coisa. Me responda: qual é a diferença entre a gentileza e seus deveres de cidadão? Quando começa um e termina o outro?
Dar o lugar preferencial não é um dever? Deveria isso ser considerado uma gentileza? Ou seria a pessoa que concedeu o lugar alguém muito bom, uma pessoa muito gentil, uma pessoa que destoa das outras, já que nenhuma das outras faz isso?
Quando se tem tantas dúvidas sobre gentileza, se torna impossível dizer que se tem memória de gentileza, pois aqui estou eu, sem nem saber o que considerar gentileza.
Gentileza, segundo o dicionário é uma ação nobre, ilustre, distinta, valentia, cortesia, agrado, elegância, e principalmente (segundo todos os dicionários que consegui encontrar) qualidade de gentil. Na realidade isso não esclarece nem um pouco o que é gentileza, e caso se procure o significado de gentil os resultados irão lhe lembrar os príncipes de contos de fada, pois basicamente o que dizem é que é alguém bonito e nobre. Quando nem o dicionário consegue esclarecer a nossa dúvida é difícil não chegar ponto de duvidar da credibilidade de tal coisa.
Afinal de contas, o que é gentileza? Talvez ela esteja contida nos pequenos atos, os que passam despercebidos, permanecendo invisíveis aos meus olhos, sendo colocada em prática por poucas pessoas, mas ainda sim, alguém.

Coisa de avô

João Lins

Uma gentileza que já fizeram comigo e eu gostei muito foi uma gentileza do meu avô.
Era assim: Ele tinha um PlayStation1 com dois controles. Quando a gente ia jogar futebol no PS1, ele deixava o meu controle desligado mas não me avisava. Eu pensava que eu estava jogando contra ele, mas não estava. Ele me enganava e eu caía feito um patinho. Mas, o mais engraçado, não era o fato de eu achar que estava jogando, mas sim o fato do meu avô sempre “perder para mim”. E eu, como sempre, metido a bonzão, ainda ficava corrigindo o meu avô, falando: “Não, vô! Você tem que apertar esse botão daqui! Não esse!”
Quando ele me contou isso, eu olhei pra ele, ele olhou pra mim, e começamos a rir barbaridades. E olha que ele me contou só no ano passado.
Pena que a gente não pode repetir essa façanha, porque o meu avô já não está mais aqui, mas eu acredito que, um dia, ainda irei me “vingar”!!!

Você

Gabriel Brandão

Quando fico perto de você
eu me sinto bem.
Quando eu te abraço
nunca quero te soltar.
Gosto de ficar perto de você,
gosto de rir com você.
Fico querendo pedir você em namoro,
de repente tive coragem de te pedir em namoro,
mas fico cada vez mais desapontado
quando você não responde.
Fico louco querendo te namorar,
mas não sei se você gosta de mim.
Gosto muito de você.

Ou aqui, ou lá.

Arthur Lima, se passou por Cecília Meireles

Por que aqui e não lá?
Por que lá e não aqui?
Ou fico aqui, ou fico lá.
Ou fico lá, ou fico aqui.
Será que aqui é melhor só que lá?
Ou será que lá é melhor do que aqui?
É uma grande pena que não se possa
Estar ao mesmo tempo nos dois lugares
Ou aqui ou lá. Ou aqui ou lá.
Vivo escolhendo o dia inteiro.
Não consigo decidir se fico aqui, ou se fico lá.

Entre avós e neto

João Pedro Veleda

Quando era menor, saía, frequentemente, com os meus avós, íamos às praias, cinemas, shoppings… e outros. Sempre que voltávamos à sua casa, e quando já estávamos próximos, começávamos a cantar…
– “Estamos chegando na casa da vovó!!”
Mesmo sendo algo pequeno e sempre o mesmo, causava grande felicidade em mim!! Hoje em dia, uma vez ou outra a cantamos ainda…
– “Estamos chegando na casa da vovó!!”

A Festa

Clara Lessa

Há mais ou menos três anos atrás, eu estava super feliz falando com umas amigas em uma festa, quando, de repente, o DJ começou a tocar uma música, e todas fomos animadas para a pista. Enquanto nós íamos, uma das meninas falou:
-Vocês já viram a Clara dançando? As outras responderam que não.
-Cara ela dança muito mal!! Disse a minha amiga que, depois disso, já não era mais tão amiga assim. Todas riram, quero dizer, quase todas, porque eu não ri, havia ficado muito triste.
Saí imediatamente de perto delas, e fui pensar um pouco. Se danço mal, então é melhor eu não dançar mais. E foi exatamente o que eu fiz. Fiquei mais ou menos dois anos sem dançar e também sem falar com a garota. Até que um dia teve a festa de outra amiga minha. Eu não aguentava mais ver todas as minhas amigas dançando e eu lá parada, mas ainda tinha medo de rirem de mim. Foi quando uma das minhas músicas favoritas começou a tocar e eu, mesmo meio nervosa, fui dançar com as minhas amigas.
Desde então nunca mais ouvi o que falam quando eu danço.

Quem sou?

Alexandre de Morais

Sou eu que ilumino cozinhas, salas, quartos, banheiros e até lugares mais escuros e sós; sou eu que ilumino também as claras ideias de humanidade, de pessoas apavoradas pelo escuro ou até por ser o centro de todos. Sem mim, alguns afazeres tornam-se difíceis. Sou uma forma de facilitar a vida, com isso sempre lembro das noites de conversa entre amigos, de tardes mal dormidas por causa de estudo ou de pessoas que passam da hora de dormir por um desejo de ter mais tempo e não conseguirem. É para isso que sempre aqui estou, para nunca deixar ninguém no escuro.

Amizade quebra fronteiras

Joana Brodt, se passou por John Boyne.

Bruno não gostava de “Haja-vista”, queria voltar para casa. “Você está em casa”, dizia sua mãe enquanto olhava para uma cestinha com frutas, havia as preferidas de Bruno: maçãs, mangas e uvas. Bruno viu que se distraíra e então voltou a pensar a respeito daquela frase. Pela primeira vez aquela frase fez sentido, ele realmente se sentia mais em casa do que antes. Concluiu que o motivo disso era Shmuel. Desde que se conheceram, Bruno estava mais feliz. Então decidiu que já estava na hora de ir aos seus encontros diários. Pegou sua roupa de explorado, certificou-se que ninguém estava olhando, passou pelo jardim até chegar na floresta, andou, andou, no que para ele havia sido horas, não gostava, até que de longe avistou a cerca, e logo Shmuel.
“Olá”, disse ele. “Olá”, disse Bruno, reparou que ele estava com um olhar mais triste que o normal, seu pijama também parecia mais sujo. Mas não era por menos, afinal ele devia ficar brincando o dia todo. Bruno invejava Shmuel por isso. Afinal, quando eles não estavam juntos, Bruno passava o dia sozinho, o que dificilmente acontecia com Shmuel, já que havia muitas pessoas do outro lado da cerca, pessoas de todas as idades.

O olhar

Helena Telles

Quando eu era pequeno, todos que passavam por mim me elogiavam dizendo que eu era muito bonito, só fui entender esses elogios quando me vi pela primeira vez no espelho… Eu era pequeno e azul, e a menina que me usava era de uma fofura só.
Juntos vimos muitas coisas, lugares diferentes, pessoas diferentes. Eu vi essa menina crescer, ela se tornou a menina mais linda que há.
Com o tempo, fui ficando esverdeado, todavia continuava a receber elogios.
Visitei lugares lindos, vi de tudo que é filme, vi de tudo que é bom. Vi o voar das borboletas, o desabrochar das flores, o pôr e o nascer do sol, vi a brisa do vento, as cores do arco-íris, vi a luz do sol.
Tudo isso com uma simples menina que, agora, nem tão pequena é, como quando nos conhecemos.

Um dia no Rio

José, se passou por Marx.

Meu pai quis que eu o acompanhasse em seu trabalho. Ele ia tocar na Lapa e era dia de manifestação política no centro da cidade. O proletariado e a classe média estavam tomando consciência de seus problemas sociais e políticos.
Cheguei ao local do show com meu pai e reparei que as ruas estavam bem mais cheias do que de costume. Chegamos na casa, estava ligando o equipamento quando ouvi um barulho do lado de fora. As forças conservadoras e reacionárias do estado atacavam cidadãos nas ruas. Muitas pessoas tinham a necessidade de se esconder dentro do local onde aconteceu o show. Elas ligavam para tentar obter informações do que acontecia na cidade.
A imprensa era basicamente controlada pela alta burguesia, mas agora com as novas ferramentas tecnológicas e as redes sociais ela não conseguia controlar totalmente as informações sobre o que ocorreu durante as manifestações. Lá fora as forças repressoras do governo combatiam os manifestantes de forma agressiva. Os donos do capital não estão dispostos a ceder nem um centavo! A população tem o direito de saber para onde vai o dinheiro dos impostos, eu pensava quando ouvi o caveirão passar.
Não houve show, mas isso não importa, vivemos um momento importante na nossa vida política, quem sabe daqui alguns anos viveremos numa sociedade mais igualitária e mais justa, onde todos pertençam a mesma classe social e as leis sejam iguais para todos. Quem sabe até, daqui alguns anos aconteça uma revolução em que ocorra um novo modo de produção.

Torturas

Helena Macedo

Não gosto de fazer o que faço. Não gosto de ser o que sou. E não gosto de não poder fazer nada diante desta situação. Os humanos me controlam, me forçam a fazer coisas que não gosto; me forçam a torturar pessoas. Já faz 20 anos que comecei a ser usado para chicotear pessoas. É horrível ser responsável por tanto sofrimento, por tantas mortes. Nunca me acostumarei nem me perdoarei por torturar pessoas, muitas vezes inocentes, que não fizeram mal a ninguém. Quando me choco contra a pele de um homem, e ouço seu grito agonizante, sinto como se estivessem chicoteando a mim, sinto-me horrível.
Tenho esperança de que essa época de tortura irá acabar, que nenhum homem inocente será maltratado novamente, e que nenhum instrumento de tortura será obrigado a se sentir assim, como me sinto, pois esse é o pior castigo que alguém pode ter: ser responsável por diversas mortes, e carregar a culpa por toda a vida.