setembro de 2013

A Proposta

A vida é um fio,
a memória seu novelo
Enrolo – no novelo da memória –
o vivido e o sonhado
Se desenrolo o novelo da memória.
não sei se tudo foi real
ou não passou de fantasia.

Bartolomeu Campos de Queirós

A ideia proposta aos estudantes foi a construção de um caderno para a produção de textos mais autorais, espaço para experimentarem a escrita em diferentes gêneros e estilos. Chamamos: “Memórias em Construção – um laboratório de escrita”. Alguns temas foram propostos pela professora, em geral giraram em torno de nossas conversas, outros textos foram livres. Assim, nasceram memórias afetivas de leitura e escrita, memórias de gentileza, memórias intertextuais, memórias musicais, memórias inventadas, memórias de objeto, memórias “DNA” – se passando por algum escritor etc. Para problematizar um pouco a questão da memória, trouxemos alguns textos literários, tais como: Memórias Inventadas, de Manoel de Barros, e Pequenas Memórias, de José Saramago.

Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória.
José Saramago

Infância

Antonia Quintiliano

Eu já poderia quase me considerar adulta, não tinha mais mochila de personagens infantis, e mal ou bem tinha passado para F2T. Finalmente não éramos os mais novos da escola: tínhamos alguém para chamar de pirralho e nos sentirmos grandes.
O dia passou rápido, e logo no final da aula, a professora pediu para que nós lêssemos um texto, cada aluno, um trechinho; fiquei impressionada com alguns colegas, até que ela disse meu nome, e todas as cabecinhas viraram para mim. Comecei a me sentir mal, gaguejei o texto todo, mas a sensação só piorou quando meu trecho acabou, abandonei a ideia de ser adulta, e comecei a chorar. Não melhorou, agora me sentia um bebê incapacitado. Tocou o sino, fui correndo pra minha mãe.
Só parei de chorar nos braços da minha mãe, quando contava a história. Ela sempre foi uma boa ouvinte. “Antonia, você realmente quer mudar isso?” Balancei a cabeça. “Então vou te ajudar”.
As próximas semanas foram difíceis, conheci Ana, Guto e o gato dançarino. Eles viraram meus amigos. Ana era diferente e usava palavras difíceis, como ESPANTOSA.
Guto e Gato eram menestréis, só fui descobrir o significado da palavra anos depois, mas tudo bem, eles já eram meus amigos, e poderia os visitar a hora que quisesse.
Fui cada vez fazendo mais amigos e lendo coisas mais difíceis, e assim comecei a criar meus amigos, escrevendo-os.

Imaginescências (Inspirada em Saramago – O Conto da Ilha Desconhecida e Mia Couto – Escrevências Desinventosas)

Stephanie Orosz

Existem diversos tipos de seres humanos, por isso podemos incluir um grupo de homens que estão homocimentados para as imaginescências, talvez não por vontade própria, mas porque não sabem como desatar o nó para seguirem seu barco. Eu estava sentada nesse tal barco, no teto, sem saber para onde ele iria me levar. Entretanto, não estava com medo, não, não, não, não estava, não. Era pequenina e nem sei o que estava pensando, só sei que estava protegida por dois gigantes ursos. Você acha que estou inventando? Continuando… Zarpei rumo à ilha desconhecida.
Muitos seres humanos desse planeta não sabem desatar esse nó. Isso muitas vezes estará a acontecer por conta das contradições de nosso mundo. Vivemos diferentes realidades. E eu já, já, iria descobrir a minha. Como os paupérrimos, uma palavra da superlatividade, e os riquérrimos, que sempre estarão a maisquerocultar, essa aí foi eu que escrevi, a realíssima realidade de imaginescências.
Eu não sei se cheguei nessa ilha desconhecida, mas sei que aonde cheguei gostei.
E vocês leitores, acham que essa historia aconteceu? Só depende de vocês, para imaginar tudo o que passei.

Paredes

André Saback

Lembro-me bem (até que nem faz tanto tempo assim) do meu primeiro show de rock, mas me lembro melhor ainda de como era antes dele.
Meu pai, como de hábito, havia comprado sua revista Rolling Stone (para quem não sabe, a Rolling Stone é uma revista que fala sobre música).
Naquela revista, em especial, a capa chamou a atenção do meu pai, pois anunciava que Roger Waters iria fazer um show no Rio, e meu pai logo se animou com a ideia. Mas eu, que nem conhecia Pink Floyd, muito menos o Roger Waters, perguntei tímido:
– Quem é esse carinha?
– É o ex-guitarrista do Pink Floyd.
– Sei… – Menti, tentando não ficar sem graça.
Porém, meu irmão, chato para cacete, resolveu testar minha ignorância:
– Fale uma música dele, então.
E, assim, minhas chances de ir ao show se reduziram a zero.
Peguei dois CDs do Pink emprestados: “The dark side of the moon” e “The wall”. Como o show ia ser o The wall, comecei por este. Adorei a banda. Minhas músicas favoritas eram “In the flash” e “ Mother”.
Só assim, depois de ouvir e (re) ouvir os CDs milhares de vezes, é que perguntei:
– Posso ir ao show?
– Você ouviu os CDs?
– Sim.
– Você gostou?
– Sim.
– Então você vai.
Minha alegria foi tanta que fui até o quarto de minha irmã que, embora quisesse, não poderia ir, e gritei:
– *@3*&*¨#*#!!
Na verdade, eu queria ir ao show mais para fazer algo que nunca fazia: entrar em um ambiente completamente distante da minha realidade, alguma coisa no mundo real.
Finalmente chegou o dia. Eu, minha mãe, meu pai e meu irmão embarcamos numa van junto com seus amigos. Já comecei a me animar, raramente via adultos tão descontraídos.
Chegamos a um tão lotado Engenhão. Como o show começou antes de entrarmos, acabaram liberando a entrada e nem precisei mostrar o ingresso.
Daí a cena que me marcou: Centenas de pessoas correndo em direção a arena, com In the flash aos berros nos meus ouvidos.
De repente, as letras apareceram em minha mente e cantei todas as músicas, alucinado.
E, só no final do show é que eu soube: além da parede do palco, a minha parede para o mundo também tinha se quebrado.

Sonhos são sonhos

Marina Mendes

As crianças são muito sonhadoras. No caso das meninas, todas aqui já devem ter sonhado em ser uma princesa, ter uma fada madrinha, ser casada com um príncipe e morar em um castelo. No caso dos meninos, aposto que já sonharam em ser um super-herói para poder salvar o mundo com apenas um estalar de dedos, e é assim que a mente da criança funciona, todos sonham com algo impossível, que nunca irá acontecer, mas elas não sabem. Nos sonhos elas criam um mundo paralelo onde todos os desejos, os mais impossíveis, podem se realizar, apenas fechando os olhinhos. Às vezes os adultos não entendem e fazem as crianças pararem de acreditar em todos os sonhos e em todas as fantasias que elas cultivam dentro delas. Isso é errado, acho que devemos deixar as crianças sonharem, pois é assim que o mundo deveria ser: cheio de sonhos e esperança!

Pelúcias

Vera Aimee

Não, não conseguia dormir de jeito nenhum, virava, desvirava, virava até do avesso!
Mesmo de olhos fechados podia sentir seus olhares sobre mim.
Não mais aguentei a culpa, abri os olhos e lá estavam eles, todos enfileirados na estante, olhando para mim.
Levantei-me e, trope, corri pelo quarto até conseguir achar o interruptor.
Respirei fundo.
“Yes!” Saiu uma voz de dentro da minha cabeça,
Feliz por ter passado pelo escuro sem ter sido pega pelo Chupa-Cabra (Sim, pelo Chupa-Cabra, quem tem medo do Bicho-Papão?)
Fui até a estante e recolhi os bichinhos de pelúcia um por um e os coloquei organizadamente sobre minha cama.
Droga.
Tinha me esquecido que eu tinha de deitar antes e depois colocá-los.
Emburrada, tirei um por um, me deitei e os coloquei de volta em minha cama.
Ahh…aí veio uma sensação ótima de missão cumprida.
É o seguinte: Toda vez que eu ia dormir, pegava um ou dois bichinhos para me fazer companhia, dormir comigo.
Só que depois eu me sentia péssima, por não pegar os outros, e todas as noites eram assim…Angústia, culpa…
E, toda noite, quando vou dormir, lá estão eles, em suas estantes solitárias.

Memórias de uma viagem

Tali Zagarodny

A minha melhor viagem no mundo foi ir para Disney com a minha mãe e com a minha irmã, em 2010.
O que eu mais gostei foram das montanhas russas. Eu fui três vezes seguidas na Evereste, que fica no parque Animal Kingdon.
Almoçar com os personagens em Magic Kingdon. Nesse almoço eu comi ‘macacheese’, que eu adoro! Também tirei muitas fotos com Minnie, Pluto, Tico e Teco.
Os fogos da noite foram muito barulhentos, mas ainda bem que eu estava com protetor de ouvidos. O mais emocionante foi ver a Sininho descendo do castelo.
Nós tínhamos um grito de guerra, que falamos até hoje quando estamos felizes: ‘huhahuha minhoca!’Gotei muito de ir nas casas dos personagens e de ver o Mickey, a Minne ,o pateta e pato Donald.
A Hanted Mantion era assustadora, mesmo ficando com um pouquinho de medo, eu me diverti. Outro brinquedo que eu fui muitas vezes foi o Smallworld e o simulador dos Simpsons.
Eu numca mais vou me esquecer dessa viagem porque foi muito divertido, e eu estou louca para ir novamente.

Papéis aos pedaços

Laura Casotti

Como eu gostava, e ainda gosto, muito de desenhar – se eu não me engano minha mãe estava trabalhando muito nessa época e não podia me dar muita atenção – eu passava o tempo desenhando, e colocava os desenhos prontos num envelope que eu mesma fazia.
Eu tinha chegado até contar quantos desenhos envelopados tinha, mais ou menos uns cem, cento e vinte desenhos, enfim, muita coisa.
Então, um dia daqueles, perguntei:
– Mãe você sabe onde estão meus desenhos?
E ela respondeu:
– Não, devem estar guardados em algum lugar.
Nós procuramos, procuramos,… E no dia seguinte ela lembrou que, quando estava arrumando as coisas, havia jogado fora!

Tensões de um objeto

Davi Macedo 

Ele era o melhor cantor, o melhor compositor e participava da melhor banda de todos os tempos. Essa era a opinião do meu dono. Eu sei que ela pode não importar mas para mim ela é a única que importa porque ele é o meu dono e eu tenho que obedecer a tudo que ele diz e faz comigo. Quando ele aperta meu gatilho, eu tenho que lançar a bala, mesmo que eu não queira.
O seu nome é Donovan e ele é louco, fui parar em péssimas mãos. Ao invés de ser usada por um louco, poderia ser usada por um policial, que me levaria por todos os cantos, mas só me usaria quando preciso, para acabar com as pessoas perigosas, que andam soltas pelo mundo inteiro.
Donovan ficava em casa o dia inteiro escutando as músicas de John Lennon e dos Beatles. Comecei a me interessar por elas e a concordar com sua opinião de que John era o melhor. Dali em diante, eu não estava preocupado com quem iria me usar e quem eu iria matar, só queria saber de ouvir as músicas de John e ter certeza de que ele estava vivo e continuava fazendo suas belas canções.
Donovan era louco e sozinho, por isso falava sozinho e pensava em voz alta. E foi em um desses pensamentos que ouvi:
– John é bom demais para ser verdade, eu não posso deixar que ele continue vivendo, eu não aguento algo tão maravilhoso.
Fiquei nervoso, mas achei que era apenas mais uma de suas maluquices. Olhei para o seu computador e vi pesquisas bem profundas sobre a vida de seu ídolo, inclusive dados como a rua e o número da casa onde ele vive. Fiquei mais nervoso.
Os dias passaram e eu vi Donovan fazendo diversos planos. Fiquei ainda mais nervoso.
Passaram dois dias e eu agora estava guardada dentro do bolso da calça de Donovan e não dentro do seu quarto. Comecei a achar que ele estava efetuando seu plano, iria matar meu ídolo. Eu não poderia deixar isso acontecer. Entramos no carro e ele começou a dirigir, parecia estar nervoso. Olhei para uma placa e vi o nome da rua de John, ele estacionou. Fomos para trás de uma árvore e paramos, esperamos. Vi a porta de uma casa abrindo, um homem saindo, olhei com mais atenção: era o John. Agora eu estava na mão do meu dono, ele mirou, preparou. Meu ídolo iria morrer. Ele botou a mão no gatilho, apertou, a bala não foi. Apertou de novo. Meu ídolo tinha morrido.
Agora minha vida estava mais triste, eu iria ficar sozinho, com um louco em casa, sem nem poder ouvir novas músicas do John. Mas eu estava enganado. Donovan me pegou, mirou e atirou em si próprio. Agora eu não ficaria sozinho com um louco, eu ficaria sozinho sem um louco, sem um dono, sem um ídolo, sem ninguém, e o mais importante: sem as músicas do John Lennon.

Sobre livros e filmes

Tomas Bartholo

O livro de Sherlock Holmes foi uma experiência muito agradável, primeiro porque o personagem de Holmes é muito complexo, ele é completamente lógico – e essa lógica afasta as pessoas dele – já Watson é o oposto, age impulsivamente e Mycroft, nem é tão lógico, nem tão impulsivo, sendo o meio termo. Dependendo da ação, ele pode ser mais lógico ou totalmente impulsivo. Segundo fator: o livro é muito bem escrito, um ambiente Noir, sempre chuvoso, frio, todos esses detalhes são contados por Sir Arthur Conan Doyle de uma forma simples, mas nunca preguiçosa.
Atualmente, se nós formos olhar para o impacto de Sherlock na cultura pop, veremos que a maioria dos filmes policiais é inspirado na obra de Conan Doyle. Para mim, uma obra que tem grande inspiração em Sherlock é Star Trek ou Jornada nas Estrelas, o personagem de Nimoy. Spock tem uma enorme semelhança com o de Holmes, os dois têm uma obsessão por achar que em tudo existe lógica, a única diferença é que Spock não tem sentimentos e Sherlock escolhe não sentir. McCoy e Kirk também são parecidos com Watson e Mycroft, pois têm que conviver com pessoas ou vulcanos, lógicos demais, mas acabam se dando bem.

Aqueles Pensamentos

Alice Turino, se passou por John Green

Há uns cinco anos atrás minha mãe disse que nunca me abandonaria, um ano depois se suicidou e me deixou sozinha com minha irmã adotada. Agora você se pergunta, onde está o meu pai? Meu pai é um caso perdido, literalmente perdido, ninguém sabe onde ele está. Não sei se ele fugiu quando minha mãe estava grávida ou se simplesmente foi sequestrado ou algo assim, mas não o conheço e é isso que importa, se ele aparecesse agora mesmo dizendo que foi embora porque quis não teria raiva dele, eu também faria mesma coisa.
Acho que minha mãe devia ter um bom motivo para se suicidar, ou só não pensou nas consequência, na verdade, se você pensar bem, suicídio não tem consequências para você mesmo, mas há para as pessoas que permanecerão vivas. Penso em suicídio como fazer uma prova de múltipla escolha usando caneta e não poder rasurar. Quando se trata de suicídio também não se pode errar, não se pode fazer sem pensar. Quando minha vida está em uma época cheia de problemas eu sempre paro e penso nas consequências antes de resolvê-los, aliás, eu sempre penso sobre todas as consequências dos meus atos antes de completá-los, por isso tenho muitas coisas incompletas na vida.
Não, não pretendo cometer suicídio, mas, sim, eu penso muito sobre esse tipo de coisa. Na verdade, penso muito sobre todo tipo de coisa, pense na coisa mais estranha que você pode pensar, eu, provavelmente, já refleti sobre isso. Desde que minha mãe morreu e eu passei a morar com meus avós, que por sinal estão cara a cara com a morte, comecei a pensar desse jeito. Acho que foi uma frase que li em papel qualquer jogado pelas ruas – “Posso morrer jovem, mas pelo menos morro inteligente”- que influenciou essa minha reflexão constante sobre tudo que você possa imaginar, não quero morrer inteligente, mas quero morrer com a certeza de que pensei em tudo que poderia ter pensado. Sim, isso é uma coisa impossível, pois as coisas a se pensar são infinitas, mas quanto mais penso agora menos terei que pensar no futuro.
Por falar nisso, tenho pensado muito sobre o meu futuro, o tempo passa tão rápido, aliás, se alguém me vir terminando a vida como faxineira de algum fast-food de beira de estrada qualquer, por favor, chute o meu cu. Tá vendo, penso até sobre chutes no cu!

Vida ou fantasia?

Francisco Nery, se passou por Stephen King.

Segunda feira
Eu estou muito feliz pelo meu pai. Ele está conseguindo realizar um sonho. Hoje ele começou a escrever o seu primeiro livro. Também estou feliz por que assim ele poderá ler os seus livros para mim, apesar de ele ter falado que eu não gostaria muito do estilo do livro dele. O meu pai sempre conta histórias na hora de dormir, como a Branca de Neve ou Os Três Porquinhos, ele diz que sabe todas as histórias do mundo. Eu não gosto muito de quando ele inventa histórias, porque as histórias que ele cria me dão medo.
Terça-feira
Hoje minha mãe deu uma bronca no meu pai, dizendo que esse trabalho de escritor é muito “instável” (Seja lá o que isso quer dizer). Eu odeio quando meus pais brigam. Eles brigaram agora de novo, a uns 10 minutos atrás, porque o meu pai chamou minha mãe de Wendy e minha mãe achou que ele estava namorando outra mulher. Eu não acho que o meu pai faria isso. Estranho, acabei de me dar conta de uma coisa, em todas as histórias que meu pai me contou, Wendy era sempre a mulher que o herói se apaixonava, mas na maioria das vezes não era ele que ficava com ela, e sim um garoto bem mais novo.
Quarta feira
Eu estou começando a ter um pouco de pena do meu pai. Ele parece muito cansado ultimamente, desde que ele começou a escrever o livro que ele não faz mais nada, não dorme, não come, não lê mais histórias para mim. Ele tem sido um pouco super protetor com a minha mãe e praticamente não passa mais tempo comigo. A única coisa que ele ainda faz é ouvir a musica “The End” de uma banda chamada The Doors (Eu nunca entendi o nome dessa banda, o que quer dizer as portas?), e ler um livro chamado Édipo Rei, que é sobre mitologia grega. O meu pai diz que essa é uma das maiores obras da história da literatura, eu pedi para ele deixar eu ler, só que ele me ignorou e falou: “Fica longe de mim”. Eu fiquei muito assustado. Fui falar com a minha mãe e ela disse que ele só estava cansado, e mesmo se o meu pai tivesse deixado eu ler o livro, ela não deixaria, porque, segundo ela, o livro é muito perturbante.
Quinta feira
Eu estou começando a ficar com medo do meu pai. Hoje de manhã, eu estava sentado com a minha mãe no sofá, e ele simplesmente me empurrou, sentou no lado dele e disse: “Ela é minha”. Eu não sei o que está dando nele. Ele continua confundindo o nome da minha mãe. Hoje na hora do jantar, ele ficou me encarando com uma cara muito estranha, parecia a cara que um amigo meu faz para todo garoto que senta no lado da namorada dele. E acho que a palavra que define meu pai ultimamente é.. Sei lá.. Paranóico, como se alguém estivesse tentando roubar a mamãe dele.
Sexta feira
Eu estou com MUITO medo. Hoje de manhã, eu estava indo tomar café e encontrei meu pai na sala. Ele me parou e me perguntou o que eu achava da mamãe, e eu falei que era óbvio que a amava. Então ele falou que se sentia mal de ter de fazer isso, puxou uma faca e pulou para cima de mim. O que estava acontecendo com meu pai? Se minha mãe não tivesse chegado na hora e impedido meu pai, ele realmente teria me matado? Eu estava em total estado de choque enquanto a polícia vinha para prendê-lo. Eu acho que nunca mais vou ser o mesmo..
30 anos depois
Finalmente, é hoje. Eu tive uma infância dura, mas hoje irei finalmente começar a realizar o meu sonho. Hoje irei escrever o primeiro capítulo do meu livro.

Tempos Modernos

Vitor, se passou por Machado de Assis.

As manifestações trouxeram consigo trabalhos dos mais diversos. Mas não um tipo de que nós nos vemos fisicamente presos a, e sim trabalhos que podem ser entendidos como dever, como, por exemplo, nosso dever de tirar a sujeira do parlamento, mudar nossos líderes e transformá-los em lideranças confiáveis. Como seguirão as instituições sociais após os últimos eventos que intercalam processos dos quais nós batalhamos tanto para se ver?
Existia um Marceneiro, que tinha acabado de entrar neste ofício, e tinha acabado de fazer isto, enquanto as manifestações ainda começavam. Marceneiros, geralmente, não ganham muito na ocupação que se apresentam, mas mesmo assim algo o levava a crer que sua fé nunca o deixaria sem comida no prato. Acreditava que ao menos em um dia na semana ganharia dinheiro suficiente para sua sobrevivência, mesmo não sendo no luxo. Tinha uma outra menina que levava também sua vida simples, sem um ofício definido. A mulher contava vinte e dois anos de idade e levava consigo a ideia de criar uma família, e a fazê-la prosperar. O encontro do casal aconteceu em alguma festa. Passaram-se 330 dias e já se viam casados, e realmente tiveram uma bela festa, simples e bela, mas as facilidades acabariam por ai. Essa outra menina compartilhava com o marceneiro esse sentimento de que: ”Nossa Senhora não iria deixar nossa família sem comer”. Ele não estava a ganhar muito, afinal trabalhava em meio as guerras civis, que aconteciam nas ruas, não só no Rio de Janeiro, onde residiam, mas também em São Paulo e em algumas outras cidades, geralmente as maiores. No entanto, contavam com alguma sorte. Havia almas bondosas, como o casal gostava de chamar, que mostravam solidariedade, pois eles não vivem momentos de dificuldade, eles, de fato, vivem dificuldades em tempo integral.
Passou-se um tempo, e o casal via-se com um filho nas mãos, e então a família via-se em festa.”Os coitados já tinham dificuldade em deixar comida no prato, imagina então para eles e mais uma criança”, Dizia a Tia da Mulher. Mas, mesmo assim, em seus tempos de maior dificuldade, a tia, forçava a si mesma a dar alguma ajuda ao casal. Eles a viam como essa alma caridosa, como a mão de Nossa Senhora lhes estendendo ou a ajuda da qual eles falavam tanto para os outros. A Tia, por sua vez, não poderia vê-los em sofrimento, pois apesar de viverem em uma patuscada, ela ainda os dava atenção, ainda que em tempos de manifestações, que tanto ocupavam a sua atenção

Embaraços

Rosa Saad, se passou por Fernando Verissímo.

A mulher diz pro marido:
-Amor, vou jogar essa panela fora, tá muito velha.
-Não, não joga. É a melhor panela que a gente tem.
-É da época do nosso casamento, Roberto! Não tá dando nem mais pra cozinhar, você não tá entendendo a situação dela. Está até nojenta.
-Se você quer jogar fora, você que vai ter que comprar uma nova.
-Mas eu só recebo daqui a 10 dias. Vamos ficar sem panela até lá?!
-É o jeito. Eu que não pago! Você que quer jogar fora. Se a gente precisar, não vai ter.
-Ok, não vamos precisar dela, temos outra.
-Aposto que vamos!
-Não vamos!
-Você que sabe…
Depois da discussão, a mulher finalmente joga a panela fora. Abre a porta de casa e deixa no lixo do corredor do prédio, onde todo o lixo pode ser “compartilhado” com os outros moradores.
Apartamento 302:
Algumas horas depois do lixo jogado fora, o morador do 302 diz para a sua mulher:
-Querida, acabei de achar o que estávamos precisando: uma panela novinha!
-Ah, que bom! Finalmente! Quanto custou? Foi muito cara?
-Essa é a melhor parte: foi de graça. Não gastei um centavo.
A mulher, desentendida, diz:
-Como assim?!…
-Ué, achei no lixo do corredor! Algum de nossos vizinhos jogou fora. Sabia que esses vizinhos serviam para alguma coisa… eles são gente boa…
-Que nojo, Carlos Alberto! Pode ir devolvendo! Eu é que não uso coisa que veio do lixo. E você sabe muito bem disso.
-Ah, para de frescura. Você vai recusar uma panela grátis?!
-Sim. Nesse estado, desse jeito, claro que vou!
-Que bobagem, Maria Eugênia! Parece que acabei de comprar; poderia até te enganar dizendo que acabei de comprar em dez vezes sem juros na Casa Bahia.
-Você nunca me enganaria, Carlos Alberto. Nunca conseguiu mentir uma palavra para mim!
-Enfim, o bom é que não menti, né?!
A mulher finge que não ouve, e o marido, então, completa:
-Já que não quer mais saber, ficaremos com a panela.
E a mulher volta ao que estava fazendo, já sem paciência.
No dia seguinte, o casal do apartamento 301 começa outra discussão:
-Eu sabia que íamos precisar da panela! Sabia! – disso Roberto.
-Então por que você não disse antes??! – Retrucou Marília, sua mulher
-Eu disse várias vezes! Você que não deu bola! Só estava pensando no que você queria! E agora deu errado!
-Já que você quer tanto, Roberto, tanto, vai pegar essa panela lá no lixo, vai!
E Roberto realmente vai. Abre a porta e vai até o lixo. Mas não acha a panela. Entra em casa novamente e diz à sua mulher:
-Marília, a panela não está mais lá.
-É claro, né, Roberto. Já devem ter tirado o lixo. Faz um dia.
-Mas eu ainda posso perguntar para o porteiro ou alguém. Vai que sabe, ou viu a panela.
-Não sei não…
-Ainda temos chances! Já, já, estou de volta.
Roberto desce e vai até o porteiro:
-Oi, Seu Rogério! Bom dia.
-Opa! Bom dia, senhor! – o porteiro respondeu na animação de sempre.
-Olha, então, você por acaso não viu nenhuma panela que foi jogada fora no lixo ontem?
-Não vi, não, Seu Roberto.
-Tem certeza? Uma bem velinha, funda…
-Tenho certeza, não vi, não, desculpa!
-Tá bom então, valeu, Seu Rogério!
-Valeu, Seu Roberto!
Roberto, então, sobe de novo, abre a porta de casa e Marília já diz:
-Nada, né? Sabia. Esquece essa panela. Já me estressei.
-Calma!! A culpa disso tudo foi sua, não minha. Então não reclama comigo!
-Mas a gente precisa dessa panela!! O que a gente faz?
-Já sei! Óbvio! Vamos pedir emprestado para algum de nossos vizinhos!
-Por uma semana, Roberto?! Claro que não!
-Ah, pedimos só hoje e amanhã! E depois vamos dar um jeito!
Marília ficou calada, pois não colaborava e também discordava de tudo. Então Roberto continuou:
-A gente pede pro casal do 302. Eles são simpáticos, gente fina. Aposto que já passaram por alguma coisa dessas…
-Hum… – Marília fala, baixo, revirando os olhos e, como sempre, sem paciência.
-Estou indo lá!
E então sai Roberto de casa, de novo. Toca a campainha, mas ninguém atende. Espera um tempo e toca de novo. Vindo de casa, se pode ouvir:
-Carlos Alberto! Atende essa porta!!
-Atende você! Estou ocupado!
-Ocupado nada, deixa de preguiça e vai logo! Eu estou no banheiro!
E, então, Carlos Alberto se levanta. Abre a porta:
-Olá, bom dia.
-Oi, bom dia! Eu sou aqui do 301 e estamos numa situação complicada e ao mesmo tempo muito vergonhosa. Estamos sem panela… será que vocês poderiam emprestar uma pra gente, se não fosse fazer muita falta? Uma mais funda, de preferência, pois só temos uma frigideira… – Roberto nunca esteve tão sem graça. Será que era pedir demais?
-Bom dia. É claro, deixa só eu dar uma olhadinha aqui e já volto.
-Está bem, eu espero.
Roberto estava meio envergonhado. Como alguém poderia não ter uma panela?
-Amor, o vizinho do 301 tá querendo uma panela emprestada – O Carlos Alberto falou, meio baixo.
-Ué, empresta! – falou Maria, sua mulher, baixo também.
-Só que eu estou com medo de uma coisa: vai que a panela é dele!!
-Ah, claro que não. Se eles estão precisando de uma panela, eles não jogariam fora.
-Tem razão. Vou emprestar.
Ele pega a panela e vai até a porta entregar ao vizinho.
-Nossa, muito obrigado! Te devolvo logo. Desculpa aí, viu?
-Nada, sem problemas. Devolva quando for melhor. Bom dia.
-Bom dia!
Roberto volta para casa e sua mulher pergunta:
-E aí, conseguiu?
-Consegui. E é a nossa panela.
-Ah, não!

Cenas da vida real

Stephanie Orosz

“Sob a lua, num velho trapiche abandonado, as crianças dormem” como diz Jorge Amado, em Capitães da Areia. Não sabemos dos seus sonhos mais obscuros e nem da sinceridade das suas mentes, só sabemos que elas dormem. Dormir, elas dormem, pensando na liberdade que encontrariam nos becos e nas ruas da grande cidade da Bahia, no dia em que o sol se reveza com a lua, no imenso areal onde está localizado o trapiche. Uma liberdade insubstituível, única alegria e felicidade porque, como o trapiche, também elas são abandonadas. Algumas nem sabem o que é ter carinho, ter um pai ou uma mãe, mas sabem que deveriam ter o direito de saber o que é isso. E por não terem casa, nem família eram menores infratores – o que, muitas vezes, é a única maneira de se virarem, continuarem respirando, nos outros tantos e tantos, e tantos, e tantos dias como aquele. Ao ler esse livro, sentada na janela e olhando para o mundo, percebi que meus problemas não poderiam ser chamados exatamente de problemas porque eram como se fossem uma minúscula bactéria, que se proliferava vagarosamente pelo meu corpo. Bem diferentes dos inúmeros problemas que esses menores tinham que enfrentar, e que, mesmo assim, não os deixavam frear porque sabiam que seus espíritos eram muito mais fortes do que podiam ou mensuravam imaginar.
A vida nos mostra a realidade de uma maneira bem diferente daquela que nossos pais nos ensinam, foi o que percebi quando meus pais e a vida juntos me mostraram o que era a real situação de menores abandonados. Fomos numa espécie de orfanato onde menores infratores também se encontravam, todos me olhavam como se eu fosse diferente. Será que eu era ou não? Tratei-lhes com o maior respeito, e falei com uma menina que tentava se aproximar, tentando conhecer um pouco da sua realidade. Minha mãe depois me contou que muitos tentavam fugir porque a liberdade ainda era o que poderia lhes contentar. O ambiente era pesado e senti meu coração pular.
Estou sentada de novo na janela ampla a olhar e imaginar as inúmeras realidades que nosso mundo ainda parece aguardar. Pensei na Bahia, onde se passava a história e sei que menores abandonados também é uma realidade por lá. Milhares de notícias a vagar… Lemos em O Globo “Polícia prende garoto de 13 anos suspeito de liderar quadrilha”, “Abandono de menor na Bahia”, “Projeto menor infrator”, “São frios os destemidos”- diz a delegada da Bahia para adolescentes infratores.
Debaixo de toda essa técnica fria e de sobrevivência são apenas crianças, que tentam sobreviver na vida porque nunca tiveram uma chance dela para se transformar.
Devem existir inúmeras ligações entre nosso mundo e nós mesmos… Ao iniciar a leitura desse livro começaram as manifestações. Pelo o que vimos, ficou claro que alguns poucos jovens infratores se aproveitaram da confusão para através de seus atos chamarem a atenção. O tempo passa, mas não muda nossa situação, o Brasil persiste em não se dar conta de que a grande solução encontra-se na educação. Toda criança deveria ter a oportunidade necessária para exercer sua cidadania, para aprender o conceito básico de respeito, e amor, que são a base para a construção de uma próspera e justa sociedade.

Tranformações

João Pedro

Tudo se transforma
em qualquer tempo ou hora,
de um dia para o outro,
o muito se torna pouco.

Nós vamos e voltamos,
os planetas continuam girando
e não sabemos o que fazer.

Andamos de automóveis
para lá e para cá
e no planeta nem
paramos para pensar.
Pouco a pouco vamos
indo, e o planeta?
Nós vamos destruindo.

Pérola

Beatriz Braga

Meu avô se chama Euller. Ele é um desses senhores típicos, bem fofinhos. Ele tem cabelo ralo, e branco, é gordinho, mas não muito, tem pança, mas não de chopp. Ele não é lá muito alto, mas seu coração é enorme. 9 netos, 4 filhos, 1 esposa, sem contar com amigos que moram lá dentro.
Era meu aniversário, 13 anos, e como sou judia – por causa dos pais do meu pai, que também são muito gente boa, mas que eu vou deixar para falar em uma outra ocasião – estava comemorando meu bat-mitvzha. Era minha festa, e veio toda minha família, de todos os cantos do Brasil para o Rio de Janeiro.
Na festa, uma cabine de fotos, ao lado de um grande álbum vermelho com folhas pretas. Meu avô não entende nada dessas coisas, mas empurrado por alguns dos meus primos, lá foi ele tirar foto. Saíram quatro fotinhos, em nenhuma ele olhava e sorria para frente, ficava apenas observando os netos. Mas o que me marcou foi sua legenda escrita no álbum. “Por que as pérolas brilham? Te amo do vovô”. As pérolas brilham porque têm de brilhar, como os pássaros voam porque têm de voar. Nem tudo na vida tem uma explicação. Há coisas que simplesmente não são questionadas, se não fosse por ele nunca iria ter pensado nisso!
Meu avô me ensina muitas coisas, e eu fico imaginando: o que seria de mim sem ele? Aí eu chego a uma conclusão. Assim como as pérolas têm de brilhar e os pássaros têm de voar, meu avô tem de existir. Eu tenho de amá-lo o mais forte que eu conseguir. Por quê? Porque as pérolas brilham.

Vida

Alice Amana

Sempre te surpreendendo! Isso que a faz tão deslumbrante, você pode estar nos seus piores momentos, algo te surpreende e lá vem uma risada, um sorriso, um lindo gesto, um abraço, quem sabe até um beijo. É verdade que, às vezes, ela consegue piorar, te faz pensar que está de sacanagem contigo, mas relaxe, não dura pra sempre! O fato é que mesmo com toda sua instabilidade é muita coisa boa que ela te traz – amor, amizade, carinho, tempo para ser feliz – então tente aproveitar, nem que seja um pouco, essa linda vida cheia de oportunidades e desafios, que só te dão mais vontade de continuar a explorar. E a curiosidade, então? Uma vontade de aprender mais, uma vontade que te dá motivação para seguir o dia a dia; a felicidade que te levanta dos seus dias ruins e, às vezes, pode até levantar mais ainda seus dias bons! Sua maluquice me fascina porque imagina a vida sem um pouco de maluquice, assim eu me lembro das minhas melhores amigas, essas loucas sempre me fazendo rir, né?! Imagine minha vida sem elas? Deus me livre!!! Enfim, resumindo, a vida é cheia de altos e baixos, mas ela sempre te compensa depois!!