Apresentação

Ao longo do primeiro trimestre, como parte do projeto do Festival de Curtas, as F9 produziram minicontos, gênero semelhante ao argumento cinematográfico. Em uma das propostas os alunos deveriam narrar como seria o mundo em 2096, adequando-se ao gênero ficção científica. Em outra, inspirados pelo Poema Tirado de uma Notícia de Jornal, de Manuel Bandeira, e ODPIS, de Leonardo Gandolfi, deveriam criar um texto ficcional a partir de uma notícia de jornal. Fizemos dois exemplares de informe, um para cada gênero. Confira uma seleção desses textos.

Cirurgia

O ano é 2096. Fup está internada. Sua namorada, Leleina, está em casa, pois ainda não sabe de nada. O motivo de Fup estar ali é um experimento. Disseram que ela tem algo diferente em seu cérebro e a colocaram ali à força.
Quando acordou, Fup esqueceu onde estava. Depois de três minutos, ela lembrou e entrou em desespero. Ela tinha que ligar para Leleina! Mas como? Com aquela pergunta ecoando em sua cabeça, Fup sentiu um sono súbito e apagou de repente.
Ela acordou com Leleina sacudindo-a pelos ombros e chamando seu nome com urgência. Depois de um momento de surpresa, as duas saíram correndo pelo corredor. O hospital estava estranhamente vazio e sempre que alguém aparecia, a pessoa olhava para o outro lado e continuava a andar. No meio do nada elas ouviram um ”beep beep” que foi ficando mais e mais alto até acordar Fup.
Aquilo havia sido um sonho. Leleina não tinha vindo resgatá-la. Na verdade, Fup estava sendo levada para uma sala que provavelmente era a de cirurgia. Sem pensar em mais nada, Fup começou a gritar e espernear até uma enfermeira lhe dar uma injeção e ela adormecer.
Depois da cirurgia, Leleina foi notificada e, obviamente, ficou desesperada e com muita raiva. Tentou processar o hospital, mas disseram que ela estava errada. Depois da cirurgia, Fup virou outra pessoa. Agora controlada por máquinas, a nova Fup esquecera tudo que havia aprendido e passara a viver em estado vegetativo.

(Helena Guimarães – F9M)

Oito ou Nove Letras

O ano de 2096 não foi fácil para ninguém. Os constantes avanços tecnológicos, máquinas e outros aparatos já eliminaram por volta de 50% dos empregos humanos. Com a falta iminente de empregos, apenas três décimos dos estudantes conseguiram trabalho, o que fez uma grande pressão cair sobre os jovens. Tinha havido um aumento drástico no número de suicídios entre menores de 25 anos nos últimos anos.
Só se ouvia o constante atrito dos lápis escrevendo incessantemente nas folhas de teste. Durante quatro horas os alunos ficaram completamente indiferentes ao que acontecia do lado de fora das paredes que os cercavam, até uma sirene soar pela sala fazendo todas as diversas pessoas estremecerem. Letras luminosas surgiram na grande tela anunciando o fim do teste, as folhas começaram a ser recolhidas enquanto os primeiros ruídos dos presentes surgiam: sons de choro de dezenas de pessoas que já sentiam que não haviam passado.
Aquele teste era o mais importante para os jovens, você devia acertar absolutamente todas as questões se quisesse conseguir um emprego. Se você não fosse capaz seria mais um dos milhões de desamparados sem sustento, morrendo em um canto sujo de um abrigo qualquer.
Uma menina saiu da sala lentamente para ver os resultados na tela. Metade da sala permaneceu sentada com medo de olhar, mas o resto se espremia para ver. A garota subiu em uma cadeira para olhar sobre as cabeças. Percorreu a lista de aprovados com seus olhos ávidos. Achou. Incrível como oito ou nove letras mudam a vida de tenta gente.
A-P-R-O-V-A-D-O
R-E-P-R-O-V-A-D-O
As pernas dela vacilaram e ela caiu. Ninguém ajudou, ignorantes a tudo que não favorecesse a eles próprios. Ela levanta e sai da sala. Ao pé da rua ela pega em seu bolso uma máscara e coloca sobre o nariz e a boca. A poluição é insuportável. Coloca também seus óculos escuros e começa a caminhar para a estação de trem.
Sorri. Conseguiu. Foi uma das poucas que conseguiram sentir o alívio de ler aquelas oito letras ao lado dos seus nomes.

(Julia Neffa – F9M)

A Lembrança do Esquecimento

Marte, 2096. Trinta bilhões de habitantes. Um aparelho que permite a visualização de memórias passadas. Sua infância. Momentos tristes. Momentos felizes. Acesso a tudo que o portador do aparelho já viu.
Aos poucos o produto fica famoso e as pessoas param de viver. Passam seu tempo assistindo a momentos passados na vida, geralmente momentos ruins. Ficam se lamentando, pensando no que teria sido se…
Com o passar dos anos, o presente é vazio, nem um pouco espontâneo. Todas as ações humanas são baseadas em memórias passadas. Cada um calculando seus atos meticulosamente para não cometer nenhum erro.
As pessoas têm medo de ser ridicularizadas, salvando, por isso, mais um arquivo de memórias embaraçosas para nunca serem vistas novamente.
Cinco anos depois, o futuro é como imaginado. Robôs tomam o mundo. Mas estes robôs não são máquinas, e sim os humanos se preocupando tanto com serem perfeitos, que evitam previamente qualquer forma de se viver.

(Lily Graham – F9M)

Indiferença (2096)

Um alarme agudo tocou três vezes, acordando todos no meio da noite. Luzes vermelhas guiaram o caminho para as pessoas, na rua se encontrava uma grande fila. Todos eram analisados, os doentes eram colocados em quarentena e o resto se agrupava em um acampamento subterrâneo. Todos permaneciam calados, ninguém se perguntava a razão de estar lá. Se era uma simulação ou não, simplesmente não importava.
2:00am, o rádio anunciou: A TERCEIRA GUERRA MUNDIAL FOI DECLARADA, ENTRE: ESTADOS UNIDOS, CHINA E RÚSSIA. A PRIMEIRA GUERRA NUCLEAR E BIOLÓGICA. HONG KONG, NOVA YORK E MOSCOU FORAM BOMBARDEADAS. UM VÍRUS ALTAMENTE CONTAGIOSO FOI LIBERADO EM LONDRES, ROMA E BERLIM.
Não houve pânico, ninguém se importou. Continuaram seus afazeres, como se não tivessem escutado a notícia. Para que pânico? Afinal, estavam seguros e isso era tudo que importava. O interesse das pessoas era apenas em sua segurança pessoal.
9:30am, o rádio anunciou novamente: O MUNDO ENTROU EM COLAPSO, ESTÁ DOMINADO POR RADIAÇÃO E PELO VÍRUS. AS GRANDES CIDADES VIRARAM RUÍNAS. OS ACAMPAMENTOS ESTÃO LOTADOS, ASSIM, DURARÃO NO MÁXIMO UMA SEMANA. ESSE É O APOCALIPSE. REPITO. O APOCALIPSE.
Houve um pequeno surto, motivado pelas pessoas só viverem uma semana. Então, foi votado um abate no acampamento, reduzindo o número de pessoas em um quarto. As pessoas consideradas menos importantes foram expulsas e deixadas para morrer no mundo infestado pelo vírus e pela radiação. Os remanescentes estavam indiferentes pelo abate, apenas focados em viver bem seu último mês. O acampamento estava dominado pelo egoísmo, a natureza da raça humana foi exposta.

(Filipe de Sá – F9T)

Entre Terra e Marte

Estamos em 2096. Lígia estuda na Escola Sá Pereira, na classe M3M. A escola ocupa um quarteirão inteiro, onde antigamente ficava uma casa velha, em Humaitá. Durante a construção da nova escola, os porões da antiga mansão ficaram intocados e até hoje os alunos comentam as lendas a respeito de misteriosos ruídos que parecem vir do subsolo.
Toda manhã Lígia pega o NVL, Novo Veículo Leve, que flutua a uma distância de oito metros do chão. Ela sai de sua casa na Gávea, na rua das Amendoeiras, pega o NVL na estação da praça Santos Dumont e segue pela rua do Jardim Botânico até o Largo dos Leões, que num momento de medidas politicamente corretas foi renomeado como Largo da Onça Pintada (já que não há leões no Brasil).
Lígia tem cabelos castanhos, bem claros, quase louros, olhos roxos e um piercing de argola no nariz. Ela tem dois irmãos menores, duas verdadeiras pestes que atendem pelos nomes de Lucas e Yoachim. Judith, mãe de Lígia, diplomata, trabalha na relação entre humanos e minúsculos alienígenas marcianos, descobertos em 2050 quando das pesquisas feitas no subsolo de Marte pelo projeto Marte Legal! – projeto criado após os escândalos de corrupção envolvendo a exploração do planeta vermelho.
A mãe gostava do trabalho, que envolvia muitas viagens e autorização para viajar no tempo em casos especiais. A viagem no tempo foi descoberta por acaso em 2076, durante experimentos com partículas subatômicas, mas ainda era uma aventura perigosa, pois não se conhecia uma forma de viajar para o futuro, somente para o passado, fazendo com que a pessoa que fosse ao passado tivesse que esperar o tempo passar para voltar ao futuro. Assim, o tempo presente ficava como que parado em relação ao passado, e a pessoa retornava um pouco mais velha. Viagens ao passado mais distante eram, portanto, muito perigosas.
Xico, pai de Lígia, é um astronauta em viagem para a galáxia Nescau, antigamente conhecida como Andrômeda, mas renomeada pela empresa que financiou a missão espacial. Por isso, Lígia mora só com a mãe e os irmão pestinhas.
Um dia, ao voltar da escola, ela encontrou a mãe e os irmão na sala numa conversa séria.
– O que houve? – Ela perguntou.
– Mamãe vai passar um ano em Marte e quer que a gente vá com ela. Mas a gente gosta muito daqui e não estamos contentes.
Lígia não sabia como reagir. Em um ano ela já estaria na faculdade e a viagem atrapalhava todos os seus planos.
– Eu não posso ir a Marte, porque tenho uma vida inteira aqui na Terra, e Marte é um saco!
Ela bateu a porta e ficou pensando o que fazer. Se conectou com as amigas via microchip cerebral e fizeram um encontro virtual para debater o que fazer. Lígia pensou em morar com Suellen e Nádia, mas lembrou que a Nádia dava muito defeito. Disse então para sua mãe:
– Vou ficar aqui e cuido da casa, pois já tenho 17 anos e posso arranjar emprego no planetário da Gávea.
– De jeito nenhum ! – disse a mãe. – Eu não gosto daquele lugar antiquado cheio de uranianos desocupados. Esse pessoal está envolvido com suco de laranja aditivado e outras drogas pesadas.
– Mas o que posso fazer? – pergunta Lígia.
– Você tem somente 17 anos e vem comigo. Até o ano que vem eu mando em você.
– Eu sei me virar muito bem sozinha, e essa não é uma atitude correta do ponto de vista educacional. – diz Lígia, que sabe que a mãe é insegura e se sente culpada porque trabalha demais. Lígia é muito esperta!
– Se você me levar para Marte eu pego uma carona com o primeiro astronauta voltando para a Terra, vou passar um ano sem estudar e irei me alistar na Nasa como astronauta.
Judith começa a chorar, enquanto os filhos mais novos exclamam querendo ficar também. Judith chora ainda mais forte dizendo que ninguém ama ela e que ela trabalha sem parar e todas as coisas que mães às vezes dizem. Lígia então percebe o quanto está chateando a mãe, pois elas se amam muito apesar das brigas.
– Fiquem quietos – diz ela para os irmãos, dando um abraço forte na mãe e chamando os meninos para se juntar a elas.
No meio do abraço ela teve uma ideia. Ela poderia passar a semana na Terra e o fim de semana em Marte, aproveitando o transporte grátis para estudantes. Seria um pouco puxado, mas todos ficariam felizes. E os irmãos? Ora, vamos pô-los num colégio interno!
Daí os dois começaram a dar defeito e passaram a achar a viagem para Marte um ótimo negócio.

(Maria Carvalhosa – F9M)

Comédia Cult Terrorista

“Em 2060, descobriu-se que o Planeta Terra se tornaria inabitável em poucos meses. Como um teste, cem pessoas foram enviadas a Marte, através de diversas missões. Entretanto, todas morreram durante suas respectivas jornadas, o que ainda é um mistério. A ideia de ir ao planeta vermelho acabou e, prontamente, investiu-se em um novo projeto: o transporte de seres humanos para dentro de computadores.”
– Mãe! Você estava ouvindo o Google?
– Weby, quantas vezes eu preciso falar que não é para o Google entrar enquanto eu estiver trabalhando?
***
Seja bem-vindo a 2096. Meu nome é Weby e eu moro com a minha mãe no PowerPoint. Aqui, a minha vida é bem limitada. Tenho que ser criativa: gosto de desenhar e fazer colagens.
Hoje de manhã, como sempre, fui ao Walmart.com para comprar o almoço. Decidi passar pela Netflix, na volta para casa, mas não sabia que tinha vírus por lá. É um lugar muito antigo, propício a esses perigos.
Tentei chamar o AVG, o McAfee… A aba não fechava. Tive que aumentar o volume até chegar ao grito. Já era tarde demais. Não consegui escapar do Cavalo de Troia. Morri ali mesmo, no meio das comédias cult.
Queria saber como a minha mãe ficou. Só espero que ela não acabe na Lixeira.

(Fernanda Conde – F9M)

2096

Ele estava nervoso. Já havia se passado muito tempo desde que partira. Acostumara-se com sua vida nova fazia anos, e tudo estava prestes a voltar a ser como antes.
A tripulação era composta por cinquenta pessoas, a maioria feliz. Eles estariam voltando para o que muitos chamariam de casa.
Bill já tinha se acostumado com sua rotina. Todos os dias levantar cedo, passar a manhã no centro de estudos até seu chefe chamá-lo para a plataforma número sete. De lá, Bill levava papéis com dados e pesquisas vindas de Marte até a plataforma número nove, responsável por essas análises. Às cinco da tarde Bill recebia seu jantar: uma cápsula de proteína enriquecida com cereais. Em seguida, voltava para o dormitório. Rotina monótona, porém nunca estressante.
Depois de anos, todas as dúvidas haviam sido esclarecidas e todas as pesquisas concluídas sobre o grande planeta vermelho que era Marte. Não havia mais motivos para continuar a expedição Apollo 96.
Passaram-se meses e a angústia de Bill aumentava cada vez mais. Quanto mais se aproximavam da Terra, mais a angústia se transformava em tristeza.
O dia chegou e todos estavam eufóricos com a chegada. As coisas de que mais se sentia falta eram família, amigos e o cheiro de barro molhado.
O foguete pousou e toda a tripulação saiu de lá com um sorriso no rosto. Foi na entrega de medalhas que o problema apareceu. Quarenta e nove medalhas entregues. Onde estaria Bill? Os policiais correram para dentro do foguete para ver se ele estava preso. A única coisa que descobriram foi que um dos pequenos foguetes salva-vidas havia sumido.

(Flora Paulo – F9T)