Apresentação

Ao longo do primeiro trimestre, como parte do projeto do Festival de Curtas, as F9 produziram minicontos, gênero semelhante ao argumento cinematográfico. Em uma das propostas os alunos deveriam narrar como seria o mundo em 2096, adequando-se ao gênero ficção científica. Em outra, inspirados pelo Poema Tirado de uma Notícia de Jornal, de Manuel Bandeira, e ODPIS, de Leonardo Gandolfi, deveriam criar um texto ficcional a partir de uma notícia de jornal. Fizemos dois exemplares de informe, um para cada gênero. Confira uma seleção desses textos.

Refugiada

A guerra na Síria afetou muitas famílias, inclusive a minha. Antes da guerra, eu brincava com meus irmãos e meus amigos na rua, mas isso acabou há algum tempo. Hoje em dia sou uma refugiada. Quando saímos de casa, chorei muito, só podia levar algumas mudas de roupas e um pertence, um brinquedo ou um livro,
Não era só minha família que estava imigrando. Conforme avançávamos, encontrávamos mais pessoas, mais do que podia contar. Eu já havia perdido a conta dos dias que passei andando. Quando finalmente vimos o mar, meus sapatos já estavam gastos e eu estava cansada e suja; ver o mar foi um alívio para mim.
Mal sabia que era a pior parte da viagem.
Alguns dias depois de chegarmos na praia, apareceram os botes. Não consegui registrar o que aconteceu, mas quando percebi, estava no bote com meu irmão. Meus pais não haviam entrado no bote, agora eu estava sozinha.
Depois de alguns dias no mar, vendo pessoas morrendo e sofrendo com a fome, cheguei na ilha de Lesbo, na Grécia. Não encontrei minha família ainda, mas não vou desistir até encontrá-los.

(Juliana Costa – F9M)

Ironia

Neto e filho de militares, José Meia-Estrela estava muito insatisfeito com o governo.
– A Ditadura só matou vagabundo! Deveria ter matado mais! Marechais governam melhor!
Era o que José dizia.
Por isso, Meia-Estrela decidiu reivindicar uma intervenção militar, pichando a ciclovia. Instantaneamente, seu desejo foi concedido. Um PM lhe deu água e sabão para que José limpasse sua sujeira.

(Kian – F9M)

Suicídio do Ciclista

E morreu, não aguentou o sangramento, um homem inocente, com muito dinheiro, teve o que queria. Foram duas facadas, uma no braço, outra na barriga. Dois adolescentes. Estava apenas pedalando na Lagoa, sentindo o ar fresco e agradável bater no rosto. Estava pensando se alguém ia ligar para o que ia acontecer em poucos minutos.
Então, é bem simples, uma no braço e outra na barriga, ainda pago adiantado, 100 mil na caixa, é pegar ou largar, disse Luiz com muita convicção.
– Não sei não, e se nos pegarem? Vamos parar no “xadrez”!
– Não, meu amigo. Já falei! É só fazer o trabalho e ir embora rápido, a essa hora não tem ninguém lá.
– Então tá, mas por que o senhor quer isso?
– Isso é um problema meu, não seu.
– Tá bom, ok. 100 mil na pra cada, não é?
– Isso.
Ao abrir a porta do consultório, seu psicólogo diz:
– Você se atrasou.
– Desculpe, é que fiquei refletindo em casa.
– E refletindo sobre?
– Estava pensando que salvo vidas todos os dias. E os familiares dos pacientes me agradecem, porque se importam com quem esta lá na cama cirúrgica.
– Sim, e…
– Parei e pensei: meus pais faleceram, não tenho esposa, amante ou namorada, e muito menos um filho ou filha.
– Sim, e isso te incomoda?
– Não, talvez eu seja mesmo uma pessoa chata. Mas a grande questão é que se eu morresse ninguém iria notar, ligar, nem mesmo sentir saudades de mim.
– E o que há de você nisso?
Depois dessa pergunta, Luiz se levanta e sai correndo para casa, sem dar qualquer explicação ao psicólogo. Ao entrar em sua casa, começa a procurar rapidamente um número de telefone em sua gaveta de arquivos. Enquanto buscava fala para si mesmo em voz alta:
– Agora sim, todos irão notar e lamentar minha morte. Como não pensei nisso antes?
Quando finalmente acha o número, liga, e combina com a pessoa que atendeu de se encontrarem na Lagoa à noite.
Agora, ele sai de sua casa, com um leve sorriso no canto da boca, e se despede de seu porteiro e vizinha, ambos muito antipáticos. Pega sua bicicleta e segue o caminho da Lagoa. Sente um ar fresco e agradável em seu rosto. Sem surpresa, talvez levemente assustado, encontra os jovens com quem falara mais cedo. Então começa a gritar, dizendo que mudou de ideia e que não queria mais. Mas agora já é tarde, está no meio da ciclovia, um cirurgião solitário, sem família, com sangue jorrando de seu braço e barriga.
“Extra! Extra! Ciclista é esfaqueado na Lagoa na noite de quarta-feira. Extra! Extra! Moradores e ciclistas da região fazem homenagem a ele e penduram bicicleta em uma grade do local.”

(Mateus Gomes – F9T)

Fotos Controversas

O dia amanheceu bonito em Havana. O fotógrafo acordou com fome, arrumou suas coisas, pegou seu relógio e foi tomar café na padaria da sua rua.
O clima nas ruas era de ansiedade, afinal de contas aquele era o dia em que Barack Obama visitaria Cuba. ”Que dia histórico!”, pensava o fotógrafo enquanto bebia seu café. Ele carregava no peito um broche com a bandeira dos Estados Unidos estampada e uma gravata com a bandeira de Cuba. Podia-se dizer que estava cômico, não pelo fato de estar todo colorido, mas porque ele havia se arrumado para o Obama. Passara um tempo pensando em qual terno iria agradá-lo, que gravata usar e, por fim escolheu levar o broche que herdara de seu avô. Enquanto vários pensamentos passavam por sua cabeça, uma sirene voou rua abaixo. Pareceu cortar todos os seus pensamentos. Imediatamente ele puxou a carteira do bolso e jogou uma nota de 10 no balcão e correu para a rua. Acenou para um táxi ainda tentando colocar a carteira no bolso. Um motorista parou e ele se atirou para dentro, em direção ao banco.
– Siga aquela viatura, por favor!
O táxi ultrapassa, em velocidade, vários veículos e alcança o camburão. Os dois carros chegaram em uma pequena manifestação. O fotógrafo paga o táxi, desce para o meio da manifestação, tira a câmera do bolso e captura algumas imagens. Os policias descem do carro, um poucos depois chegam mais cinco carros. Poucos segundos depois, os manifestantes e o fotógrafo se vêm cercados por fitas. A maioria para de gritar palavras de ordem, mas os que ainda gritam falam que vivem em uma ditadura e reclamam a liberação de presos políticos. Aquela manifestação não estava ali à toa, fora planejada para ocorrer exatamente no dia da chegada de Obama. Eles queriam que o presidente dos EUA ouvisse tudo isso, no entanto os policias tinham chegado ali para acabar com a manifestação o mais rápido possível. Depois de terminar esse racíocino, três policias pularam em cima de uma mulher. O fotógrafo tentou tirar algumas fotos, porém tudo estava muito tumultuado. No meio daquela confusão, ele foi empurrado contra a parede. Sentiu seu supercílio abrir e o sangue escorrer pelo rosto. Cinco minutos depois todos os manifestantes estavam sentados contra a parede, inclusive o fotógrafo. O chefe de polícia passou olhando para cada um dos manifestantes, quando avaliou o fotógrafo, parou, fixou o olhar no broche que usava como se tivesse visto um fantasma. Puxou o fotógrafo, limpou seu tenro e quando reparou no corte do paletó quase desmaiou :
– O que ele está fazendo aqui?
– Ele estava junto com os outros, então nós o detemos.
– E vocês vão deter amigos do Obama? – grita o chefe de polícia – alguém faça um curativo e leve-o para casa !
Um dos policiais fez o curativo e levou-o para casa. Ele esperou algumas horas e depois foi para o aeroporto esperar Barack Obama. Depois que o avião pousou, alguns policias foram receber Obama, curiosamente os mesmos que antes estavam batendo nos manifestantes. Aqueles que tinham os mesmos pensamentos que Obama. O fotógrafo tirou uma foto dos policias com o presidente e, na volta para o hotel, foi comparando as duas fotos. Percebeu que ele, fotógrafo que havia sido salvo pelo broche de seu avô, tinha duas fotos muito controversas em sua câmera.

(João Moura – F9T)

Cidade Luz

Era uma noite fria em Paris. Beto morava lá há um tempo. Ele estava indo à Torre Eiffel, que era um lugar onde gostava de ir sozinho, para pensar.
Beto morava a quarteirões da torre em um pequeno prédio amarelo. Chegando no topo da torre, Beto ouviu um aviso:
– A energia da torre será desligada em dez segundos por conta do blecaute voluntário promovido pelo Fundo Mundial da Natureza e durará uma hora.
Beto estava sozinho na torre e sabia que não sairia a tempo porque estava no último andar e os elevadores parariam pelo corte de energia. Então ele decidiu esperar.
As luzes se apagaram e Beto estava lá em cima, observando a cidade luz no escuro.
Ele olhou para o céu e depois para a cidade que parecia muito pequena lá de cima. Tentava imaginar a vida de cada um lá embaixo, como se fosse Deus. Até que Beto passou os olhos por um pequeno prédio amarelo que ficava a mais ou menos a uns dois quarteirões de distância da torre e viu que era o seu prédio.
Ele ficou olhando algumas pessoas de preto que estavam agindo estranhamente. De repente vê seu prédio pegar fogo. As pessoas de preto tinham fugido. Beto ficou desesperado. Ele estava lá em cima olhando seu prédio pegar fogo sem poder fazer nada. Foi a primeira vez que ele não pôde fazer nada para ajudar, principalmente a ele mesmo.
Então Beto ficou olhando as chamas se espalharem. Ele já tinha se acalmado um pouco, pois estar na torre, lá em cima, no escuro, dava a sensação de que ele não tinha uma vida lá embaixo, e estava simplesmente assistindo a um filme em que um prédio amarelo pegava fogo. Ele se sentia apenas um observador.
De repente, as luzes acenderam. E tudo voltou ao normal.

(Nina Paulo – F9T)