A Proposta

Os textos aqui publicados tiveram como mobilização/inspiração outros tantos textos de diferentes autores e gêneros, relacionados aos temas discutidos em nossas aulas de Português. Não iremos cita-los um a um, mas propor que vocês descubram nas linhas e entrelinhas dos estudantes, lendo as suas palavras, também em diferentes gêneros, e observando as suas dicções.
Foram produções que aconteceram ao longo do semestre e escolhidas por eles para a composição desse informe.

Realidade e fantasia, Brasil, o país das maravilhas?

Por Stephanie Orosz

E se hoje fosse amanhã e se o amanhã fosse ontem?

E se o lobisomem virar homem? E se os contos ganharem vida?

E se Dilma não tivesse comprado uma Refinaria em Pasadena?

O amanhã será ontem quando o ontem for o anteontem, o homem virará lobisomem quando a lua estiver cheia e, com uma varinha de condão, a Cinderela irá perder o sapatinho na manifestação.

No sinsalabim, a Copa surgirá e com a indignação do povo desaparecerá!

O Brasil se tornará campeão quando no país acabar a corrupção.

Todos vão cantar lá lá lá lá na hora da roupa suja lavar, e abratesésamo gritarão para o gigante abrir a avenida no meio da manifestação.

Dessa vez, a Bela Adormecida desmaiará em cima do Congresso
Nacional, e, em plena madrugada, será presa no flagra.

A Globo transmitirá ao vivo todo o desenrolar da manifestação, mas a repórter irritadinha ficará em casa vendo apenas pela televisão, reclamando com o marido dos colegas de profissão. Por uma coincidência inusitada seu gato se irritará de tanto dramalhão, roubará suas botas de Milão e irá se juntar à manifestação.No mexe e remexe da manifestação se misturarão contos reais e da imaginação, já o futuro será decidido na próxima eleição.

Relações intertextuais

Por Gabriel Labouret

No poema “O Bicho”, de Manoel Bandeira, vimos um catador como um bicho. Você tem que ser diferente! Esse poema nos faz refletir sobre as desigualdades sociais. Nesse mesmo pátio percorrido pelo homem-bicho pode ter uma pessoa de classe média, que não papou todo o seu almoço e jogou, sem problemas, o resto de comida fora. Esse resto, o catador vai
catar, como fizeram os porcos e os pobres esfomeados no curta Ilha das Flores. Esses são tão pobres que catam a comida que não serve nem para os porcos. Podemos até pensar que, nesse caso, o porco poderia ser uma pessoa de classe média observando o “BICHO” devorando os restos de sua refeição; e o bicho não é o bicho PORCO, é o catador de comida que não serve para o porco, no caso, um outro ser humano.
Em junho de 2014, os moradores de rua e os catadores vão ser
escondidos, isso para gringo poder ver um Brasil do futebol, do samba, da mulher bonita e não o país de desigualdade social, de miséria, de violência e muito mais….
Eu, pessoalmente, nas mídias que frequento, como internet, passo 80% do tempo vendo filmes e séries, 15% vendo esportes e política, 4% vendo bobagens e 1% vendo fome e pobreza, ou seja, invisibilidade para pobreza, para fome. Agora, imagine na COPA…

Em o Artista da Fome (Kafka), a partir de um momento, o artista perde a fama e vai para um circo. Podemos imaginar o circo como um jornal e o artista da fome como a fome e a pobreza . Será que as pessoas se interessam em saber sobre a fome e a pobreza? Ou será que é o jornal que esconde esse problema ?
A questão é que esses problemas estão por aí. E o governo, se preocupa mais em escondê-los ou resolvê-los?

Não tenho fome

Por André Saback

Serviram-nos de centenas de coisas, algumas tão iguais umas das outras, que são praticamente o mesmo prato.
Centenas de pratos, porém todos focados em um mesmo capítulo, um capítulo de um cardápio, um cardápio imenso.
Agora, de todas os pratos que há na mesa, não há um senão de comida, por maior que seja a variedade. Tudo comida ou também a falta dela.
Não tenho fome de comida, portanto não tenho fome de nada sobre a mesa. Por que não me deixa ler todo o cardápio? Se comida não me satisfaz, deixe-me ter fome de algo não literal. Abra o cardápio para a poesia. Deixe-me ler o cardápio cheio de variedades, deixe-me desfrutar dele. Me dê comida que eu passarei fome. Deixe-me mergulhar nesse cardápio repleto de metamorfoses de pratos diversos.
Você tem fome de quê?
Não sei, mostre-me o cardápio.

Os três moleques

Por João Daniel

Três moleques estavam fazendo arruaça no BRT e foram expulsos.Três moleques que pagaram a passagem estavam fazendo arruaça no BRT e foram expulsos.Três garotos, de não mais de 13 anos, estavam fazendo arruaça no BRT e foram expulsos.Três crianças, moradores de rua, não souberam se comportar no BRT e foram expulsas.Três indivíduos, vítimas da incompetência/negligência do Estado, fizeram arruaça e foram
expulsos do BRT.

5 fatos:
1- Você é um garoto de não mais de 15 anos.
2- Você acabou de fazer uma trilha durante um dia inteiro.
3- São 21 horas no Rio de Janeiro.
4- Vocês não pagaram a passagem.
5- Você é o único que está indo pra Zona Sul.

Você está a bordo de um BRT. Ao chegar a um dos pontos em que ele para, você vê, à frente, outro BRT parado no ponto com o pisca alerta. Várias pessoas entram no seu ônibus nessa estação. Você fica sabendo por meio de sua mãe, que soube por meio de um passageiro do ônibus parado, que naquele ônibus havia três moleques fazendo arruaça. Todos ficam com pena do motorista por ter que passar por isso.

4 fatos sobre os moleques:
1- Eles não deviam ter mais que 13 anos.
2- Eles foram expulsos pelo motorista e se recusaram a sair.
3- Diferentemente de vocês, eles pagaram a passagem.
4- Eles ameaçaram quebrar o ônibus.

O seu ônibus faz uma manobra e volta para a “via”. Ao chegar à próxima estação todos veem os moleques esperando o ônibus passar no canteiro central. O ônibus para. Todos se levantam para olhar. O seu grupo fala para as pessoas saírem da janela, pois eles poderiam jogar pedras. Todos estão com medo. O ônibus continua a andar e passa pelos moleques.

Todos reparam que os moleques não tinham mais de 13 anos. Eles viram crianças. Sua mãe comenta: “Esses daí dava pra colocar no colo e dar umas palmadas”. Todos riem. Em seguida ela fala para você: “Tadinhos, eles devem estar doidões”.

Alguém do seu grupo fala: “Isso é guerrilha”. Você não sabe ao certo se algum dos garotos falou isso ou se alguém inventou. Eles repetem isso algumas vezes, rindo dos garotos e ironizando: “Nós andamos no meio da floresta no escuro e estamos com medo desses meio-homens”. Sua mãe fala para você: “Eles disseram que não queriam descer por que tinham pago a passagem” e mais uma vez coloca eles como vítima da história, usando como sempre a piedade.

Você olha para a janela e sente uma imensa tristeza. Pensa o quão difícil deve ter sido para esses garotos arrumarem dinheiro para desperdiçar em passagens de ônibus. Você pensa na palavra “guerrilha” que o grupo não para de repetir e rir. E pensa que gostaria de estar do outro lado. Pergunta a si mesmo o que está fazendo ali. Pergunta-se porque se relaciona com essas pessoas tão desprezíveis.

3 sentimentos em forma de rajada:
1- Raiva
2- Vontade de vandalizar e fazer arruaça.
3- Pena

Você sente vontade de quebrar algo, porém isso viola as leis de conduta que os moleques não conheciam. Você pensa nisso, e isso apenas te motiva mais. Você tenta quebrar um pau que você usou como cajado durante a caminhada. O pau dobra, mas você não tem forças suficientes para quebra-lo, talvez por você ser fraco, talvez por você saber que a sua raiva não vai ter nenhum fruto. Você tem vontade de pegar o pau que você não conseguiu quebrar e bater na cabeça dos indivíduos rindo dos moleques ou rindo da impossibilidade dos moleques de machucarem eles. Você se contém e pensa que a ignorância é uma benção. E depois percebe que os indivíduos provavelmente não tinham tanto acesso ao conhecimento como você, e que o oprimido sempre oprime. Você sente pena.

O BRT chega ao seu ponto final. Você se separa do seu grupo, com sorrisos e apertos de mãos. Pega outro ônibus que lhe deixará perto da sua casa. Senta com seu irmão e mãe numa cadeira do ônibus. O cara da frente, um gordo com cara de bêbado e camisa do fluminense, puxa conversa com você e seu irmão. Pergunta se os cajados iriam virar arco e flechas. Vocês respondem que sim, que um deles vai virar. Ele comenta sobre o jogo do fluminense. Você decide fingir que é fluminense. Ele
reclama sobre o Renato Gaucho que, faltando cinco minutos de jogo, mandou o time segurar e não avançar. Você pensa o quão importante um mero jogo de futebol deve ser para esse individuo. E responde com uma cara que não diz nem sim nem não, mas é o que o cara quer ver. Ele pergunta se eu vi na televisão a luta do brasileiro fortinho contra o Americano, mais bonito e mais forte. Você faz que não com a cabeça. Ele fala que o brasileiro fortinho deu uma surra no americano e que ele não era o favorito. Ele comenta que outro dia estava vendo televisão e parou no canal da missa, e que a missa foi uma coisa fenomenal. Você pensa
que deve ser bom realmente acreditar nessas coisas. Ele fala que a fé da garotinha tinha sido tão grande que ainda sobrou mais um pouco. Ele faz uma conexão com a sobra de fé e a vitória do brasileiro fortinho. Ele desce do ônibus. Sua mãe comenta: “É tanta solidão. Ele não deve ter amigos, a vida dele deve se resumir a assistir à televisão”.

Você pensa que a situação dele lembrou muito a do “papai”, que não é seu pai de verdade, mas, sim, pai do seu irmão, que uma época procurou ser um pai de verdade, porém as coisas não foram muito bem e ele parou.

Porém você não comenta isso. Você não acha que é necessário essa comparação. Ela traria coisas que não são necessárias.

Você chega em casa. Toma um banho. Faz um dever que valia nota do curso de inglês e que você havia esquecido de fazer, sentado em sua mesinha em frente ao computador. Você pensa que deveria escrever sobre os garotos. E depois deita na sua cama e dorme, numa paz tão solene que dá a impressão de que todo o resto do mundo está bem.

Josué Maria

Por Luiza Miranda

Diferente de seus pais, Josué Maria nasceu livre. Ele nunca foi vendido como seus avós e muito menos foi trocado como sua irmã – que uma semana depois de seu nascimento foi trocada por um milharal. Ele nasceu livre, mas ainda na maternidade as autoridades o visitaram. Depois de uma rápida leitura de documentos sobre seus pais, os homens cortaram seus pés. Josué Maria nasceu livre para poder andar sem precisar pedir autorização, mas cresceu sem pés.
Várias pessoas tinham pena de Josué e lhe davam coisas, que ele
sempre agradecia do fundo do coração, até o dia em que ganhou um sapato. Nesse dia, Josué Maria entendeu que as pessoas não estavam dando as coisas a ele, mas, sim, a qualquer um. A pessoa que o deu sapatos se sentia bem e pensava que tinha feito algo maravilhoso, quando na verdade o entregara uma lembrança da situação de seus pés.

Naquela mesma noite, Josué decidiu que precisava comprar próteses para suas pernas. Para isso, ele necessitava de dinheiro. Uma quantidade de dinheiro que só um trabalho poderia lhe dar. Mas Josué Maria não tinha pés para ir as suas entrevistas. Ele precisava de carona. E caronas, ao contrário de sapatos, não era algo que muitas pessoas queriam dar.

Depois de três dias, finalmente alguém o levou de carro até uma
empresa. Durante a entrevista, todos sorriam e lhe faziam perguntas, até que olhassem para abaixo de suas pernas. Para o vazio que existia ali. Quando isso acontecia, os sorrisos desapareciam e as perguntas diminuíam até que pedissem para que Josué Maria se retirasse.

Ele procurou emprego até os 50 anos, até que recebeu uma nova visita das autoridades. Elas sorriram e lhe perguntaram se estava cansado. Como a resposta foi positiva, ofereceram uma opção: o colocariam em um sono profundo, no qual não precisaria mais se preocupar com seus pés. A ideia era tão atraente que Josué aceitou. Com um tiro começou a dormir. Josué foi enterrado ao lado de outros defuntos sem pés, sem identificação, em um lugar que não existia em nenhum mapa. Nunca mais pensou em seus pés.

Arquivo Político – As veias do passado interferem no futuro.

Por Stephanie Orosz

Olhai bem no fundo dos olhos de uma nação e observai a fragilidade de sua história. A história é angustiante porque, querendo ou não, vão sempre existir dois lados de uma mesma história, que serão interpretados aos olhos de cada cidadão. No passado, a moeda de dois lados jogada no ar com duas histórias modifica o futuro, esse futuro, posteriormente, será nosso presente, que hoje trata dos 50 anos do nosso passado. A política do passado e do presente se modifica e se diferencia. Mas nunca, em nenhum momento da vida, conseguimos deixar de ser políticos, porque é a partir do ato político que realizamos escolhas, escolhas que eleitoralmente irão mudar o nosso futuro. Mas isso se diferencia completamente quando pensamos na política dos governantes, a chamada politicagem, que nesse presente é uma decepção, uma tremenda tristeza. Alguns políticos são ladrões, ladrões que visam a riqueza individual e não o crescimento da nação. O que gera isso é a democracia jovem, porque no passado de apenas 50 anos atrás o governo e os governantes eram impostos pelos militares sem a reflexão
ou a escolha de um povo, que lutava pela liberdade. Mais tarde esses cidadãos não estariam preparados para a vinda da democracia, muito menos prontos para se tornarem eleitores e cidadãos conscientes. E, agora, assim, o país afunda com um governo que mata e sacrifica cidadãos. Por isso é que muitos estufam os peitos para dizer que odeiam a política dos governantes, a sua politicagem. Estamos jogados a própria sorte em um país onde grande parte dos cidadãos é analfabeta, e
tem pouca sensatez de suas escolhas. Um país ou nação será livre quando puder finalmente entender o significado de democracia e política que, juntas, através do poder da educação, levarão o povo à soberania.

Uma verdadeira nação do povo e para o povo. Nada é natural, e nada é impossível de mudar.

Difícil de imaginar

Por José Macedo

Para mim, hoje em dia, é muito dificil imaginar que alguém pudesse ser preso por estar apenas lendo um livro. Livro proibido? Ou por estar escutando uma música que foi censurada. Ou que as casas das pessoas pudessem ser invadidas e revistadas por qualquer motivo. E que a imprensa não pudesse noticiar os fatos. E que as pessoas pudessem ser torturadas até a morte.

Uma das coisas mais graves que aconteceram na ditadura é o desrespeito aos direitos fundamentais e básicos do ser humano, como ter liberdade de expressão, o direito de ir e vir. O governo e os militares faziam de conta que os direitos humanos não existiam, eles ignoravam ou criavam leis acima de tais direitos.

Eu acho muito estranho pensar em que como a ditadura poderia interferir na vida das pessoas mais comuns possiveis. Que, às vezes, crianças não poderiam nem falar o nome real de seus pais na escola, por exemplo.

O perigo da ditadura está longe, mas, ao mesmo tempo, é preciso ficar atento para que isso não aconteça de novo.

Política

Por Clara Lessa

“É a ciência da governação de um Estado ou Nação e também uma arte de negociação para compatibilizar interesses”.

De acordo com o site “significados.com.br” isso é política, mas, especialmente, na época da ditadura podemos perceber que nada disso era verdade, pois toda vez que você tentava expor os seus pensamentos… ou era baleado, ou era expulso do país ou era preso e torturado até a morte. Podemos ver que não havia nenhuma compatibilidade de interesses. Você acha justo que quando as pessoas se expressam devam levar um tiro ou serem presas?
Naquela época, muitos músicos, artistas de cinema, teatro e artistas plásticos foram presos, torturados e expulsos de seus países, por estarem fazendo seu trabalho. Sabemos que muitas músicas foram censuradas, como Alegria, Alegria – Caetano Veloso, Caminhando – Geraldo Vandré, Cálice – Chico Buarque e Milton Nascimento, Mosca na Sopa – Raul Seixas, É proibido proibir – Caetano Veloso e muitas outras. Você acha justo que,
naquela época, quando os músicos faziam seu trabalho eles fossem presos?
E você acha justo, hoje em dia, mesmo sem ditadores políticos,
ter uma ditadura de mercado em que músicos de baixa qualidade têm um sucesso absurdo com suas músicas terríveis, não deixando espaço para os músicos não comerciais?

Hoje em dia, mesmo sem ditadores políticos, ainda vemos resquícios violentos dessa época, como o caso do Amarildo, que desapareceu e da Claudia da Silva Ferreira, que foi arrastada por um carro de policia, dentre muitos outros. Você acha justo que depois de tudo o que passamos naquela época de tristeza ainda tenhamos esses resquícios?

Valeu a pena?!

Por Alice Turino

Outro dia li uma coluna de algum jornal online, muito criticada no Facebook, inclusive. A coluna falava sobre o lado bom da ditadura, o colunista mencionava, por exemplo, a melhora da economia naquela época.
Depois de um tempo pensando, percebi que não importa que a economia tenha melhorado, se várias pessoas foram torturadas, mortas, e presas sem motivo.
Será que valeu a pena fazer todas essas atrocidades com inocentes que só queriam conquistar seu direito de expressão? Eu acredito que não. E também não vejo motivo para, no começo do texto, o colunista criticar quem só vê a ditadura como algo ruim, pois, tendo economia melhorado ou não, muitas coisas desumanas e erradas aconteceram.

Bicho?

Por Carolina Nery

Ninguém gostaria de ser invisível, ter que passar por alguém e essa pessoa nem saber da sua existência, não saber o seu nome, o que faz etc. É muito triste saber que no país que você mora tem um número absurdo de crianças, adultos e famílias vivendo na rua, sem ganhar um tostão, passando frio, passando fome, sofrendo… Muita gente passa por essas pessoas e nem olha, e muita gente olha com um olhar de desprezo, querendo
se livrar disso, que no caso não são qualquer coisa, são pessoas, pessoas que também sentem. Esse problema ficou bastante explícito na tirinha da Mafalda, em que a personagem Susanita tenta não olhar para a pobreza, porém sua atenção não se desviou completamente. Ela acabou vendo a triste cena de um homem dormindo na rua, mas isso não fez seu coração amolecer, sua decisão foi seguir em frente com o nariz empinado. Ainda teve coragem de dizer a maldita ideia de esconder essas pessoas, como se elas fosse invisíveis. Na poesia O Bicho, o autor Manuel Bandeira quis mostrar a realidade também, o que me impressionou e acho que não apenas a mim, mas a todos.
Bicho, o que seria um bicho? Uma simples borboleta, um cachorro, uma formiga? Deveria ser isso, porém boa parte da sociedade acha que pode chamar um indivíduo simples de bicho. Não percebem que elas estão tentando sobreviver, isso significa, aproveitar o resto, o resto de comida que muita gente desperdiça. Um bicho que na verdade é igual a todos os outros seres humanos, inclusive porque nós somos bichos também. Não é apenas uma pessoa que é, são todas, porém alguns sofrem mais que outros… Pessoas individualistas que apenas olham para si mesmas tinham que ter a experiência de ser invisível, porque assim iam aprender a respeitar o outro, a dar valor às coisas, e ser solidário. Essa é a palavra que não passa nem perto do
vocabulário daqueles que tratam os outros seres humanos de
forma despercebida.

O mundo

Por Stephanie Orosz

O mundo é o conjunto de indivíduos que formam um agrupamento humano determinado, esse é o meio social no qual vivemos. Nesse meio social existe uma realidade coletiva, para a qual todos contribuem cotidianamente. Porém, dentro dessa realidade generalizada coletiva, existem diversas outras realidades, cada um dos seres humanos que habita esse espaço físico, ao qual chamamos de Terra. Essas pequenas realidades são ampliadas a partir de experiências que o ser humano passa ao decorrer da vida. A concepção de ego próprio também é a experiência que o indivíduo possui de si mesmo em contato direto com a realidade.
Apenas um simples erro da visualização da sociedade pode tornar o ego uma arma perigosa. E é isso que descarta e tornam invisíveis pessoas que necessitam de nossa compreensão. Pessoas que fazem de tudo para serem notadas e terem seu lugar no mundo. Como um artista, que faz inúmeras obras para ter a atenção da sociedade, mas nem sempre é compreendido.
Todos nós no final somos seres frágeis que habitamos um planeta perdido na vastidão universal. E todos estão procurando uma forma de viver em sua realidade, sendo aceito.
Inferiorizar e descartar pessoas seria uma forma de governantes esconderem o problema que está na raiz do subdesenvolvimento, um jeito medíocre de escapar dos problemas. As condições de vida de muitas pessoas não são melhoradas, e então começam a ser rebaixadas e inferiorizadas ao nível mais baixo dos porcos. Para mascarar o problema, começa-se um processo de embelezamento da cidade, que pra poucos serve. Então, esse processo que era uma forma de esconder um problema já vira um outro problema, o da indignação. Uma sociedade deve ir muito além da beleza, deve estar atenta para a coletividade. Um povo que deve lutar para que todos sejam notados, lutar pelo direito do próximo, pelos direitos da nação.

Relação no Cotidiano

Por Tomás Bartholo

Analisando os 3 textos – O poema O bicho, a tirinha da Mafalda, O Artista da Fome – e o curta, Ilha das Flores, para procurar um tema em comum, ele será a fome, mas este tipo de análise seria superficial, pois não estaríamos olhando este assunto da maneira ideal. Veremos uma conexão muito mais profunda entre o curta e os textos.
O Bicho, de Manuel Bandeira, tem uma grande semelhança com o curta. Os dois, coincidência ou não, nos mostram seres humanos se alimentando de restos deixados por animais, isto já mostra uma enorme similaridade. Já a tirinha de Quino e o texto de Franz Kafka têm uma ideia parecida, mas abordadas de maneiras diferentes, sendo a tirinha leve e irônica, e a história de Kafka muito pesada, conta com uma enorme quantia de humor negro. Mas todos os textos têm um objetivo comum, mostrar a cegueira do homem para a fome, para miséria que o cerca. O legal é ver que todos os tipos de cegueira são abordadas em tons diferentes, variando do humor para o absurdo, da miséria para o cotidiano, e de absurdos que acontecem ao seu redor, mas que a maioria do mundo não vê, ou prefere não saber.

Angústia

Por Alice Turino, Carolina e Stephanie

Visto aos olhos de um mero qualquer, o sentimento era óbvio. Jogado na imundice de uma jaula, engolia saliva com voracidade, não lhe sobravam nem forças para se levantar. Havia rumores entre os fiscais, o que diziam a respeito do artista da fome. Eu era revelado erroneamente aos olhos de quem não queria lhe fazer bem. Eu era o único sentimento que expressava a sua invisibilidade e descarte na sociedade.
E esse homem só queria ser notado.

Ossos

Por Luiza Miranda

A primeira vez em que o vi, eu tinha seis anos e nunca tinha pensado em ir ao circo. Minha tia ligou na segunda semana da estadia do circo em nossa cidade e assim que desligaram o telefone meus pais disseram que sob nenhuma circunstância eu deveria por meus pés no picadeiro. Admito que minha curiosidade foi atiçada por aquilo, mas qualquer possibilidade de uma aventura não autorizada morreu quando a punição foi citada – um mês sem sobremesa.
O dia seguinte era ensolarado e quando meus amigos me contaram que o circo estava se apresentando ao ar livre, me lembro de ter pensado que era sorte grande poder ver o que existia no tal circo sem pisar no picadeiro. Pensei que assim fugiria do castigo.
No início eu estava me divertindo, os animais eram bonitos, os palhaços me faziam rir e os mágicos – uau, os mágicos – eles faziam com que minha boca abrisse e com que esquecesse de respirar.
Não me lembro bem quando ele veio, talvez tenha sido depois dos palhaços, talvez depois dos tigres, mas o importante é que assim que ele entrou no meu campo de visão, mesmo que apenas por seis minutos, meu mundo pertenceu a ele.
Talvez eu tenha gritado, mas prefiro acreditar que não faria nada tão rude. Tudo o que sei é que a imagem de seus ossos visíveis através da pele pálida coberta por roupas que pareciam apenas ressaltar sua magreza ficaria em minha mente por anos. Do resto do dia me lembro de quase nada, tenho uma memória vaga de minha chegada em casa, meus olhos grandes e vermelhos por causa do choque e das lágrimas. Minha mãe me perguntando o que aconteceu, eu lhe contando a história e perdendo o privilégio de comer sobremesa por um mês.
Quatorze anos depois o mesmo circo aparece em minha cidade. Sei que é o mesmo porque ouvi as crianças do bairro comentando que o circo se apresentou nas ruas ontem. Nenhuma falou sobre o homem magro.
Saio de casa às seis da noite e ando até a tenda. Entrego o meu dinheiro ao homem da entrada e ele me guia até as jaulas. Ando pelos corredores sabendo que não importa quantos anos passaram, eu o reconhecerei. Falo isso mais por acreditar que ele seria o único que conseguiria ter aquela aparência do que por uma ideia romântica. Eu nunca o vi dessa forma.
Se passaram quinze minutos e eu não tenho nenhum tipo de resultado. Quando trinta minutos se completam, eu pergunto ao homem que me mostrou o caminho se há alguém no circo extremamente magro. Ele me diz que no circo não há nenhuma atração desse tipo e me apresenta a sua maior atração, uma pantera negra.
Quando a vejo, meu mundo pertence a ela, assim como um dia pertenceu ao homem magro.

(In)compreensões

Por Dora Acioly e Julia Matta

Em diálogo com “O artista da fome”(Kafka)

E mas uma noite chegava, porém, como sempre, o velho não comia. Na verdade, Jepaminondas (Ou Pami, para os íntimos) não sabia ao certo se o Artista abria exceções nos domingos, dia em que a patroa vigiava-o.
Era mais uma noite fria e o nosso avoado açougueiro, que havia esquecido o casaco – como em toda vez que essa circunstância se repetia – aproveitava para tentar puxar assunto com o homem misterioso, o Artista da Fome, que mesmo ao seu lado, parecia tão distante. Depois de alguns instantes disse, cerrando os dentes:
– Tá frio hoje, né? – Não houve resposta. O açougueiro conseguiu capturar um vislumbre do rosto do artista, quase por completo fundido às sombras. Depois de alguns minutos olhando em volta, enquanto tentava se aquecer a partir de tapas em seu próprio corpo, continuou:
– Me chamo Pami.
Silêncio. Ainda não desmotivado, o vigia pigarreou e resumiu seu monólogo.
– Cê tá aqui há quanto tempo, cara? – O artista finalmente virou, e, com uma expressão sarcástica, indicou a placa.
– 23 dias?! Mais sete e um coelho já teria parido, hein? – O artista revirou os olhos. Às vezes, Jepaminondas desejava nunca ter iniciado uma conversa com o homem, pois acabava criando uma antipatia em relação a quem deveria adorar. Pena que tal fascinante criatura houvesse sumido. O açougueiro chegou para sua vigilância habitual e não o viu. Nem na mais fina sombra. Teria ele fugido? Se mudado? Saído do ramo de “jejuador”? Foi perguntar a seus superiores.
– Para onde foi o Artista da Fome? – Perguntou, parecendo preocupado.
– Aquele homem? De tão pequeno que estava, não teria notado se sumisse.
E foi ao fim deste diálogo que Jepaminondas se viu como o único que ainda enxergava o Artista não como objeto, ou peça de arte, mas como um amigo. Alguém com sentimentos, e com fome de não ter fome.

Observando o artista da fome

Por Dora Acioly

Tem coisas que as pessoas não querem lembrar.
Passou grande parte da vida tentando ser o que queria de fato; lembrar.
E só no final percebeu que esqueceriam.
Seja porque decidiram ignorar, seguir em frente.
Ou porque não arriscariam ver.