dezembro – 2013

Pelo olhar do tio Zeca

Por Thomaz

Era sexta-feira e eu fui buscar meu sobrinho José, na escola, com uma péssima notícia. Chegando lá, pedi para falar com o mestre-escola. Disse a ele que o pai do menino havia morrido e precisava levá-lo para casa urgentemente. Nós passamos na escola da minha sobrinha, eu pedi para ele me esperar na porta.
Voltei com ela e percebi que José começava a comemorar achando que seria uma festa e por isso gostara de sair mais cedo. A irmã estava mais preocupada. Porém, nenhum dos dois sabia o que esperava por eles.
No caminho, parei para falar com um conhecido meu e disse-lhe em voz baixa.
-O Humberto morreu de apoplexia.
-E os filhos, como ficaram?
-Eles ainda não sabem.
-Coitados.
-Quando vai contar para eles?
-Eu não vou contar, vou deixar a mãe fazer isso.
-A que horas é o enterro?
-Às nove horas
-Vou estar lá.
-Adeus.
-Vamos, crianças.
E fomos para casa. Quando chegamos lá, vimos portões cheios de panos pretos. Entrando no quarto da minha cunhada, ela estava na cama, chorando. Ela pulou em cima das crianças e contou sobre a morte de Humberto!
-Vosso pai morreu! – gritou ela.
-Mas como? – perguntou Felícia.
-De apoplexia, minha filha
O enterro foi no dia seguinte, às nove horas da manhã e lá estava meu amigo, o que encontrara na rua. Eu ajudei a carregar o caixão e lá se foi meu querido irmão.
Passado o enterro fui para casa pegar uma semana de nojo, sem sair de casa. Era luto por um ano todo.
Soube que José desceu para a loja sem permissão da mãe. Por sorte ela descobriu onde ele estava e mandou uma escrava buscá-lo. Soube também que ele ficou com vontade de ir para escola.
Continuei a vida tentando esquecer o motivo do luto.

Como dizer as coisas… Por Bernardo

Estava em casa quando uma escrava me avisou que meu irmão havia morrido. Fui para casa da minha cunhada. Cheguei lá e ela se acabava em choro. Vi meu irmão no chão da sala, fiquei paralisado. Quando soube que era verdade, quase morri de tristeza, tentei falar:
-Como você est…
-Por favor, vá buscar as crianças na escola.
-Es-es-tá bom. – respondi gaguejando.
Saí de casa refletindo sobre como iria falar para as crianças, o que iria fazer… Estava confuso, e quando percebi já estava na escola do garoto. Entrei com pernas bambas, fui até sua sala e falei com o professor o que havia acontecido. Mas não consegui falar para o José. Saí com ele, peguei sua irmã e fui para casa calado. Chegando lá vi a minha cunhada chorando. Chorei também. Meu irmão no meio da sala em seu caixão pálido, uma imagem de deixar tonto. Depois de tantos anos, ele morreu.
Já fazia um dia desde que meu irmão nos deixou. Hoje era o seu enterro, estava na hora. Era muito triste ver o caixão a se mover, lentamente, com os passos de quem o carregava.
Meia semana e meu sobrinho estava aterrorizado por ficar preso em casa, tanto que fugiu e foi à loja, teve que ser buscado pela escrava.
Quando voltou à escola, finalmente, todos estavam o olhando com ar de pena, mas ele estava feliz.

Pelo olhar da irmã Felícia

Por Hanah

Em uma sexta feira, eu estava na escola. Meu tio Zeca me pegou mais cedo. Fiquei feliz, mas achei estranho e não disse nada. Meu irmão ficou todo animado, achando que era alguma coisa boa. Mas quando eu cheguei em casa não era nenhuma festa, era nossa mãe chorando, então ela disse:
– Felícia e José, o vosso pai morreu.
– O quê?!!! – disse José.
Eu fiquei espantada e disse:
– Como ele morreu?
– De apoplexia.
Eu fiquei muito deprimida e com a maior dor no coração, não sei que pecado meu pai cometeu ou assumiu para ter acontecido a pior coisa que se pode acontecer com alguém. Meu pai era uma pessoa muito boa, não acredito que ele tenha cometido um pecado tão grande para uma coisa dessas acontecer. No dia seguinte, o enterro do meu querido pai foi às nove horas. Depois do enterro, eu fiquei deprimida por dois anos, sofrendo por causa da morte. Então, achei um lindo namorado que me consolou.

Por Sofia Coelho

Era sexta-feira, eu estava na minha escola quando, de repente, o meu Tio Zeca e o meu irmão vieram me buscar mais cedo.
Fiquei muito feliz pois estava saindo antes da escola. E, pelo visto, meu irmão também estava porque ele achava que teria uma festa. Parecia divertido.
Ao chegar em casa, percebi que não estava acontecendo nenhum aniversário, nem chá de bebê, nem nenhum outro tipo de festa. Na verdade a única coisa que vi foi minha mãe, chorando.
-Meus filhos! Vosso pai morreu! – disse ela, ainda chorando.
Entrei em estado de choque. Como isso poderia ter acontecido? Não tinha ideia.
No dia seguinte, houve o enterro de meu pai, foi uma tristeza geral. Todos estavam vestidos de preto, e alguns estavam chorando.
Eu tive que ajudar muito a minha mãe durante a semana de nojo. Ela parecia a mais triste da nossa família.
Então, depois de uma semana de muita tristeza, voltei para escola.

Por Bento

Eu vi o tio Zeca com o meu irmão vindo me buscar. Saí da aula mais cedo, achei aquilo estranho, mas não comentei nada. Meu irmão ficava todo animado achando que tinha algum tipo de festa surpresa. Cheguei em casa e vi a minha mãe chorando, ela disse :
– Vosso pai morreu. De algo que só o grande senhor do mundo ou os mágicos da medicina sabem.
– Como essa tragédia terrível aconteceu!?!
Mamãe estava pálida, e não disse nada.
Eu fiquei tão agoniada que corri para meu quarto. Comecei a chorar em cima de minha cama.
No dia seguinte, às nove da manhã, foi o enterro de nosso querido e amado pai. E foi horrível.
Fiquei tão triste e tive que faltar à escola por sete dias. Depois com o tempo, deixei de estar tão depressiva, voltei à vida normal.
Mesmo com o meu pai morto, ele sempre estará em nossos corações.

Por Rodrigo

Um dia eu estava na escola e o mestre-escola me chamou:
-Felícia, hoje você vai sair mais cedo.
Então, eu saí da sala e encontrei meu tio e meu irmão. Eles disseram:
-Bom dia, Felícia!
-Bom dia, tio! Bom dia, José Martins!
-Vamos, Srta. Felícia?
-Sim, vamos.
Então fomos até em casa pensando que o motivo deveria ser uma festa ou um teatro ou até ir ao circo. Quando chegamos encontramos nossa mãe chorando e perguntamos:
-O que foi, mãe?!
Dentro do quarto, vimos nosso pai pálido deitado na cama.
Começamos a chorar e chorar, eu tentei consolar minha mãe, mas acho que não adiantou muito.
No dia seguinte, foram buscar o caixão. Meu irmão ficou ali sentado ouvindo tirarem o caixão da sala, eu fiquei no quarto da minha mãe. Quando chegamos ao enterro, vimos todo mundo triste e pálido e ficamos assim também.
Meu irmão achava que a escola era melhor do que ficar em casa, então ele fugiu para a loja que funcionava embaixo da casa, mas a mãe mandou a escrava buscá-lo.
Quando voltamos para escola, ele ficou feliz de não ficar em casa preso.

Um Desastre. Por Tom

O dia foi muito triste hoje.
Se quiserem saber o que aconteceu, vou explicar: por alguma razão que ainda não sabia, meu tio me pegou mais cedo na escola. Eu pensava que era para alguma festa, mas não era nada disso…
Quando eu e meu irmão caçula chegamos, nossa mãe estava caindo aos prantos! Pedi para que meu irmão ficasse com ela e tentasse acalmá-la, enquanto eu ia buscar um copo de água com açúcar.
Enquanto eu ia para a cozinha, vi um corpo no meu quarto. Fui ver quem era, e era o meu pai! Soltei um berro:
-AAAAHHH!!! Mãe, o que que é isso?!
Depois que minha mãe nos explicou tudo, descobrimos que nosso pai havia morrido de apoplexia.
O enterro foi às nove horas, do dia seguinte, e foi muito triste.
Eu quase nunca podia ver meu pai, porque ele estava sempre no trabalho.
Quando eu o vi morto, fiquei tristemente feliz – feliz porque eu o vi, e triste porque ele estava morto.
Agora, estamos todos vestidos de preto, e sem ir à escola.

Por Pedro

No dia em que meu pai morreu, eu e José estávamos na escola e nossa mãe mandou nos buscar mais cedo. Quando o tio Zeca chegou, José ficou achando que ia ser uma coisa muito boa, mas quando chegamos em casa, não era uma festa, era só nossa mãe chorando, então ela deu a triste notícia:
-O vosso pai morreu.
“A tristeza foi grande, por mais que o confuso e o vago entorpecessem a consciência da notícia. Não tive forças para andar, e teria medo de o fazer. Morto como? Morto por quê? Estas duas perguntas, se as meto aqui, é para dar segmento à ação”.
O enterro foi no dia seguinte às nove da manhã. Eu e José não fomos. Depois disso, tivemos que ficar em casa por uma semana, mas José não aguentava mais ficar em casa. Ele queria voltar para a escola mesmo não gostando. Preferia voltar para a escola do que ficar em casa.
Quando ele voltou, ele ficou muito feliz e viu que a escola não era tão ruim.

Pelo olhar do mestre-escola

Por Sofia Berwanguer

Estava sentado em minha sala quando Orfino, o escravo da escola, veio até mim dizer que havia alguém querendo falar comigo. Perguntei quem era, Orfino disse-me que não sabia, mandei que entrasse. A sala inteira ficou em silêncio, alguns até botaram a cabeça para fora da sala para ver quem era. No corredor da escola vinha um homem simples que parecia ser um fazendeiro. Era tio de Sr.José Martins que era chamado pelo sobrinho, de tio Zeca. Ele veio me dizer que José Martins teria de sair mais cedo:
– Por quê?
Ele explicou-me o motivo. Pediu-me que não dissesse nada ao garoto, jurei que não diria nada, e não disse.
Ouvi a notícia atentamente e o liberei. Nesse momento me senti um pouco triste pelo Sr. José Martins, o menino saiu daqui tão feliz, mal sabia que a notícia seria tão ruim.
Pena saber que amanhã, sábado, às nove, terei de ir ao enterro do pai de José Martins.
No dia seguinte, no enterro, perguntei ao Zeca como o menino havia reagido à morte de seu pai:
– Ele pareceu estar só um pouco triste, porém, Felícia já chorou demais, a menina amava o pai mais do que tudo na vida.
– Coitada!!!
Assisti ao enterro. Olhei para José Martins, o menino olhava para o caixão de Guilherme com olhar triste e seco. Olhei para Felícia e os olhos da garota se alagavam em lágrimas. Coitada de Maria, mãe dos meninos, tentava segurar as lágrimas em seus olhos e a expressão de tristeza em seu rosto, mas não conseguia.
Um tempo depois vi José Martins na escola como se nada tivesse acontecido.

Por Rafael Sivieri

Um belo dia, numa sexta-feira, estava dando aula como todos os dias e o tio de um aluno, do Sr. José Martins, veio lhe buscar mais cedo. Fiquei com pena, porque ele saiu todo feliz achando que ia ter uma festa com doces e salgados deliciosos, mas quando chegasse em casa ia receber uma terrível notícia, que seu querido pai falecera. O pai tinha morrido de apoplexia. José não gostava muito de estudar e nem de vir à escola. Depois que o tio do Sr. José buscou-lhe foram buscar sua irmã Srta. Felícia. E logo foram para casa encontrar com a família e saber da péssima notícia.
Fiquei sabendo que dentro do quarto, ao pé da cama, estava a mãe com a cabeça entre as mãos. Sabendo da chegada dos filhos levantou-se de salto, foi abraçá-los entre lágrimas, gritando:
– Meus filhos, vosso pai morreu!
A tristeza foi grande, por mais que o confuso e o vago entorpecessem a consciência da notícia.
O enterro foi no dia seguinte, às nove horas da manhã. Fui à casa da família, mas não vi as cerimônias; alguns vultos, poucos, vestidos de preto, lembro-me que vi. O padrinho do Sr. José Martins, dono de um trapiche, lá estava, e a sua mulher também, que o levou a uma alcova dos fundos para mostrar para ele gravuras, é eu lembro disso.
Sete dias depois José Martins voltou à escola, e eu notei que estava alegre por ter voltado.

Pelo olhar do pai

Por Nina

Eu não conseguia me mexer, eu via todos chorando a minha volta, mas niguém me explicava o que acontecia. Tentava falar, me mexer, mas não conseguia.
De repente, consegui me ver, eu estava pálido e…morto! Ma-mas, como? Tentei falar com minha mulher que já recompunha-se, pois nossos filhos já chegavam. Tentei abraçá-los, mas não consegui. Vi minha esposa abraçá-los e dar a notícia. Então, quando vi a cara de tristeza de meus filhos, desabei.
Depois do enterro eu ouvi uma voz dizendo:
-Está na hora de ir, mas antes, gostaria de abençoar sua família?
-Sim, quero sempre poder vê-la.
-Assim será feito.
E foi feito. Todos os dias ele visitava sua família, mas ela estava sempre tão derrubada… Então, ele foi falar com Deus para poder ter uma conversa com sua mulher, para que ela se animasse.
-Isabel!
-Q-quem está aí?
-Sou eu, seu marido!
-Não, meu marido está morto!
-Por isso mesmo, eu falo do céu.
-D-do céu?
-Sim, e peço em nome de nossos filhos que siga a vida feliz, pois eu sempre estarei aqui com você do seu lado e do lado de nossos filhos.
-Mas eu poderei te ver?
-Não, mas eu juro que sempre estarei aqui te olhando acredite em mim!
-Está bem. Adeus.
-Adeus, meu amor, de todas as vidas.
E Isabel saiu da sala e foi animar seus queridos filhos que viveram bem para sempre.

O Pai e sua morte! Por Mariano

Um dia, estava na minha casa almoçando, quando senti um gosto estranho, porém continuei comendo. Isso aconteceu por cinco dias seguidos. No sexto dia, eu vi a minha escrava fazendo a comida. O gosto voltou a ser bom. No momento que eu comi essa comida, vi que teria que olhar a escrava fazendo todos os almoços, pois sabia que ela poderia estar me envenenando. No entanto, fiquei com preguiça de vê-la preparando a comida todos os dias. Então não vi, e a comida ficou ruim mais cinco dias. Nesse último dia, fui pegar uma água e vomitar, pois estava enjoado, mas quando encostei na vasilha da água o veneno fez efeito, eu morri.
Quando morri vi uma luz brilhante e branca. Vi também que estava curado. Corri em direção à luz e cheguei a um lugar lindo Era um jardim com flores que ninguém podia imaginar, brilhantes, foscas, coloridas, fosforescentes e a mais linda de todas, uma com todas as cores que existem fazendo um arco-íris que brilhava.
No meio dessas flores tinha um caminho de pedras por onde eu segui. No final, tinha um portão gigante, e lá de dentro saiu um tipo de guarda, achei muito estranho, havia negros e brancos, todos estavam sem armas. Depois o chefe deles saiu da multidão e falou para eu entrar, vi uma energia boa nele, então entrei. Era o lugar mais lindo do mundo, não existia energia ruim nem mente ruim, só existia paz e amor.

Por Marina

Meu irmão Zeca foi buscar as crianças, minha mulher ficara chorando muito. Quando elas chegaram a ouvi dizer:
-Vosso pai morreu.
Vi a cara de tristeza de todos. Às nove horas do dia seguinte, me enterraram, mas minha alma permaneceu viva.
No primeiro dia minha mulher tentava enxugar as lágrimas e minha filha chorava mais que o irmão. O tempo foi passando e meu filho ficou mais triste por não poder sair de casa. Ele tentou ir a loja mas não conseguiu, a escrava pegou o coitado. Meu filho, que não gostava da escola, queria finalmente ir à aula.
Falta apenas um dia para eles retornarem à escola. Eu não vou poder levá-los nunca mais.
Mesmo assim, minha alma pode descansar em paz, pois sei que ficará tudo bem.

…Um Descanso. Por Vítor Melo Medeiros

Era uma manhã qualquer. Acordei mais cedo, me espreguicei como qualquer outro dia, e fui ao banheiro. Depois tomei um café, me alonguei e fui beber água.
Minhas pernas estavam fatigadas depois de uma semana de trabalho, finalmente era sexta-feira – a propósito, dia que não trabalho – e peguei o jarro d’água. Movi minhas mãos trêmulas até ele, e peguei um copo.
Assim que comecei a enchê-lo, senti uma dor. Mas não era uma dor qualquer, era uma dor subindo goela acima, uma ânsia forte de vômito, uma febre súbita que subia dos meus pés. Um vento gélido soprou, e o ar dos meus pulmões cessou. Tudo em uma fração de segundos. Tarde demais, a última coisa que vi foi o jarro e o copo com água caindo junto comigo. Eu havia morrido.
Porém, eu flutuava. Como flutuava, se via meu corpo no chão? Olhei para as minhas mãos, que estavam pálidas, e quando vi meu corpo estava muito menor.
Assim que olhei para trás, vi a morte, parada. Então, ela me disse:
-Venha comigo… Eu te levarei para o descanso…
-Não fale tão alto! Não quero que a casa toda acorde! – eu disse, sussurrando.
-Ninguém me ouve… Só você, Pedro…
-Por que eu morri? Foi tão repentino!
-Venha descansar finalmente… Não dá para esclarecer nada agora…
Aturdido, fui puxado pelas mãos finas, pálidas e gélidas da morte. Minha visão cessou, e depois, me senti como se tivesse desmaiado. Quando abri os olhos novamente, estava em um lugar estranho. Lá a pressão era muito baixa, e não havia gravidade. Havia um portão enorme, feito de bronze. Um sujeito louro com seis asas desceu dos céus e me disse:
-Bem-vindo ao pós-vida. Meu nome é Miguel e serei seu guia aqui. Você tem alguma dúvida?
-Que lugar é esse, Miguel? Onde estou?
-Você está no Pós-Vida, Pedro. Estes portões te levarão aos jardins do Éden. Mas você só poderá entrar aqui após sete dias observando.
-Observando o quê, Miguel?
-O mundo dos vivos. Isso será seu último contato visual. Assim que se encerrar a sua Missa do Sétimo Dia, você poderá entrar no Éden. Você foi um excelente homem quando vivo. Bom pai, bom marido, modesto, inteligente, tinha um emprego… Você tem a permissão para entrar aqui.
-E o que acontece lá nos Jardins do Éden, Miguel?
-Você aguarda…
-Aguarda o quê, Miguel?
-Sua próxima vida. Você viveu exatamente 52 anos e 6 meses. Você terá seus merecidos 105 anos de descanso. Aqui, nos Jardins, você poderá ver todos os seus queridos entes e ídolos que já se foram. Aproveite…
-Adeus então, Miguel…
-Nos vemos outra hora, Pedro…
Comecei a flutuar para baixo, e vi meus filhos saindo da escola.
-Não creio que sejam anos de Tio Zeca – disse minha filha Felícia.
-Por quê? – perguntou meu filho José.
-Parece meio triste.
-Triste não, parece carrancudo.
-Ou carrancudo. Quem faz anos, tem cara de alegre.
-Então serão anos do padrinho…
-Ou da madrinha…
-Mas se terá festa, porque mamãe nos mandou para a escola?
-Talvez não soubesse…
-Haverá jantar grande…
-Com muito doce…
-Talvez dancemos…
Eles estavam tão felizes, que dava pena de interferir na mente imaginativa deles… Passou um tempo, já estavam falando de circo, baile… Mal sabiam o que os esperava.
O tempo passou, e finalmente, depois de entrar em casa, a bomba chegou. Minha esposa, Isabel disse:
-Meus filhos, vosso pai morreu!
Vi-os se comovendo, mas José ficou confuso ao mesmo tempo. Mas ainda assim lágrimas saiam descontroladas dos olhos de todos, e os soluços eram audíveis em toda a vizinhança. E logo após, aconteceu aquele silêncio ensurdecedor.
O meu enterro (Como é estranho dizer “O meu enterro”) foi no dia seguinte, às nove horas. Felícia não parava de chorar. Nada falava, só soluçava. Já José, continuava confuso e pensativo. Após isso, começou a semana de luto, então José ficou ainda mais estranho. No terceiro dia, vi o que o tornava assim. Em seu quarto, quando estava indo dormir, murmurou:
-Não aguento mais essas férias… Só me sinto pior. Quero voltar para a escola.
Achei estranho no começo, aí que me toquei. Ele não aguentava sofrer, e ao invés de tentar resolver, tentar esclarecer, como toda criança, ele tentava esquecer. Ele formou tanto seu caráter, que amadureceu.
Depois do ocorrido, a semana continuou. José começou a estudar, para compensar os dias que faltou. Felícia resolveu pedir ajuda da mãe, e começou a fazer as tarefas de casa. No sétimo dia, foram à missa, e pela primeira vez, rezaram. Todos os meus queridos do lado de lá, compareceram.
Eu não pensava em morrer, então não tinha escrito um testamento. Deu vontade de gritar alguma coisa, como “Minha casa para a minha esposa”, mas não dava. Estava mudo. Então, a missa acabou.
Miguel me chamou, e entrei nos portões. Um gramado verde gigantesco se estendeu, e montanhas nevadas surgiram no horizonte. Após isso, um rio enorme surgiu, e uma estrada de tijolos simpáticos apareceu. Caminhei por ela, até achar a tão falada macieira de Adão e Eva, ao lado de um jardim florido. Então, encontrei um castelo, finalmente, e ele era todo feito de granito.
Entrei no castelo, pela ponte levadiça, e encontrei um salão enorme e uma mesa no meio, de ouro incrustada de diamantes. Segui pelos salões, me surpreendendo cada vez mais.
Vi uma porta no final do corredor. Quando saí por ela, encontrei aqui o quintal mais bonito que já havia imaginado, com todas as pessoas que eu conhecia, que estavam do lado de cá. Meus ídolos, como Machado de Assis, estavam cercados de outros fãs que queriam bater um papo. Minha família, encontrei vovó, que todos os domingos eu ia visitar, tio Alberto, aquele Italiano do Frango com Batatas, e logo aqui, na beira do riacho, perto das flores, vi você. Então, contei tudo que me aconteceu para eu morrer.
E você me viu:
-Certo. O que quer fazer agora, filho? Quer que eu conte uma história, como daquelas que eu contava antes de você dormir, quando você era pequeno?
-Sim, mãe. Depois de tanto viver, acho que tenho o que merecia…
…Um descanso.